Mais um último

Título: Trabalhos cartográficos sobre uma poça d’água chamada Danilo Crespo
ou um antologia pouco fidedigna

“Late again.
This happens often,
and yet,
Ricky doesn’t know why.”

15.

Se o olho à distância não sei se
é o ponto de chegada ou uma emboscada.
Você está cansado e eu, de saco cheio.
O pior é que a gente nem se conheceu ainda.

14.

No final das contas tudo soa apenas como um jornal–
um jornal com letras desconhecidas e palavras estranhas,
toda a beleza de uma profusão de pequenos mistérios
que na verdade tratam de uma notícia desimportante.

Os olhos se buscam onde sabem que não se encontrarão,
A fraqueza nu deprime os dois cansaços.
Nós calculamos. Calculamos exageradamente.
A caixa torácica é uma caixinha de surpresas.

Se tentarmos pegar alguma coisa lá dentro
é provável que já seja poeira mais leve que a nostalgia.

13.

Somos carne, ilusão e tinta.
Sigo minha estrada
como se andasse com pés-de-pato,
faço minha trilha de palavras desacertadas.

Ela decidiu
que iria pular do prédio.
Dizia que não pertencia.
Era mesmo passarinha.

Depois da queda,
o corpo inerte
só pode sentir
a honestidade do pulo.

De todo o reino animal,
Só conheço um bicho que
come pelo ódio
e mata pelo prazer.

Quem prefere ser louco,
não sabe como é triste.

12.

Aperte o cinto,
segure-se firme,
porque o mundo
roda rápido,
rápido demais.

11.

Sei lá.
Viva o sei lá.

10.

Nós ficamos em silêncio,
meu sonho não mudou,
ainda é esse:
silêncio.

Não há necessidade de um grande sonho
para sonhar grande.

09.

Não adianta planejar o que sinto.
As paredes têm pernas.
As escadas têm vontade.
Num momento meu quarto
vira uma obra de Escher.
E eu consigo me ver
falando as mesmas coisas
como leite derramado
sobre os cômodos ligeiros
do nosso sonho secreto.

08.

Os beijos voam borboletas incandescentes
cada um chama outro numa ilusão de infinitude.
Quando fico rodeado de borboletas, percebo
que estão apenas ali para se tornarem
cinza.

As conversas que ainda não aconteceram
e a estaca zero estão juntas,
bem ali no meio da minha chuva particular.
Fecho os olhos e fecho o corpo em vão.

Eu não consigo parar de pensar
e o mundo também não para de rodar.

07.

Se eu mudasse meu modo de viver,
você preferiria que eu falasse
sobre o que eu não entendo
para que você pudesse
me entender?

06.

Puxo da cartola
um sonho meio rasgado,
vivo ainda. Feito peixe
desesperado.

05.

Corro pelo campo, corro esperançoso,
querendo algo que não sei que quero;
Respiro, suo, o coração bate, as pernas vão,
os braços acompanham o ritmo,
não há nada entre mim e o mundo–
eu sou o primeiro a nascer
de mim mesmo.

Quando olho para trás,
penso que eu poderia te levar lá,
mas você nunca me disse
aonde queria chegar.
Talvez, lugar nenhum seja
exatamente o que você precisa.
Não paro de correr.

Nos limites da distância,
sinto o mesmo arrepio
que senti contigo–
sinto-me preso no aperto
do meu próprio corpo
novamente.

A essa altura eu estou certo
que eu sou o primeiro a nascer de mim
mas mais um que morre
de mim.

Observando de longe meu corpo sitiado
não sei se riem ou choram
da minha paz tomada.

Eu não paro.

04.

Me distraio e faço um pouco de carinho
na cabeça do meu incêndio de estimação–
Alguma coisa me lembrou ficar deitado depois do almoço.
Acordar muito cedo e te levar no ponto.
Vincular felicidade ao cansaço.

Tornei-me uma memória daquelas em que não se confia.
Um fantasma afogado no meu próprio coração aberto.
Ainda acho que estou vivo para comer fondue,
para cantar sozinho no quarto,
para não esquecer o que eu tenho que lembrar.
Vivo só para suas mãos pentearem o meu cabelo.

Resta uma dúvida – ou eu nunca aprendo,
ou eu já aprendi e não me dei conta disso ainda.
A verdade é que eu troquei tantas vezes as peças de lugar
que elas terminaram justamente no mesmo lugar.

03.

Nessa volta do ponteiro, eu sou o sabonete delgado que,
no fim,
desaparece na pressão com que o aplicas
sobre tua pele.

02.

O toque acontece todo dia e perde-se

Vejam: o ser humano é um bicho estranho, precisa do toque de outros seres humanos. Acreditam numa entidade chamada Amor. Um fenômeno interessante de ser observado — com extremos nem sempre agradáveis ao expectador. O homem e a mulher agregam valores opostos a escolha indissociáveis da natureza, exemplos: amor e liberdade (de escolha, de corpo), tempo e proximidade (distância e cansaço), espera e toque, etc…

Vejam este indivíduo: ele se chama Danilo Crespo e é um integrante perfeito da sociedade. Ele parece um homem completamente arrependido, olhem a sua expressão. No entanto, não se enganem: homem algum é completo em algo. São seres da dúvida, mesmo na convicção e na mania.

Este é Crespo escrevendo. Este é ele dando aula. Este é ele dormindo. Este é ele dançando numa festa. Este é ele dançando sozinho. Este é ele simplesmente coçando o queixo. Este é ele pensando na vida. Este é ele coçando o queixo enquanto pensa na vida. Ele acredita que necessita de algo ao qual tinha acesso anteriormente. Esse algo é uma mulher. Crespo já teve a permissão social do toque em relação a algumas mulheres (no sentido da paixão). A palavra usada na língua dele para isso é Saudade. Na língua predominante, na qual ele também se comunica, seria Nostalgia.

Como já foi dito anteriormente, o ser humano opõe valores simbióticos e este foi o caso de Danilo Crespo. Este é Crespo correndo. Ele corre por longas distâncias. Este é ele após uma hora de corrida, ele está exausto. Ele está odiando o mundo por estar exausto. Agora este é Crespo com a garota que ele imagina ser “a mulher da sua vida”. Estes são eles felizes. Eles se beijando apaixonadamente (marca do amor mútuo da espécie). Agora, após dois anos aproximadamente este é Crespo e ela. Note como ele está cansado, mas não está feliz. O ser humano é o ser das dúvidas, ele cria suas próprias dúvidas a partir de nadas: ideais, planos e/ou traços ainda difíceis de serem definidos(cientificamente “mistérios”).

Ele acredita, baseado nos rituais pelos quais passou, que precisa da mulher com quem estava antes. Nos dois cansaços apresentados anteriormente, ele perdera a noção de toque. Agora, novamente, num ato biológico ele precisa do toque. E dentre tantos toques que poderiam satisfazê-lo, ele acredita somente num toque específico.

Este é Danilo Crespo. Ele está escrevendo um poema, porque não compreende tudo que é maior que apenas ele mesmo e ainda assim faz parte de seu corpo.

Senhoras e senhores, este é um humano comum e seu universo de incertezas sobre o nada. Obrigado pela audiência.

01. Love

Today, I woke up full of anger.
I wanted to smash your pretty face.
Break your skull.
Batter your rib cage.
Fuck you to death.
Maybe then
things would be different.
Maybe then
it would all go straight as an arrow,
straight as you love:
things would be the same
’cause they could only end that way,
the same but unlike.
Straight as you hate
as a cut you wouldn’t regret
a bruise you’d never nourish
and forget.

00.

O piano está pegando fogo
mas a família ainda quer
ouvir o pianista tocar

.

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2 comments

  1. Aline · Março 3, 2013

    Sua escrita é como uma mão no ombro direito, na hora certa. Está muito bom, cada toque, cada número.

    • raphaelchicayban · Março 5, 2013

      A cada verso eu consegui me imaginar em suas situações, estas que viraram curtas metragens na minha cabeça. Vou te dizer que há muito um texto não me pescava dessa maneira. Home Run Crespo…

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