O que eu quero te dizer

 

  Errei o tempo da primeira vez que te disse isso.
  Nós estávamos fazendo algo diferente. Porque chegamos a conclusão de que todos os casais eram iguais e a gente nem-casal-ainda não queria seguir o mesmo caminho. Por isso, tiramos a poeira dos patins e fomos andar na praia de São Francisco.
Péssima idéia – não levei meia hora pra cair e me quebrar todo. E você me ajudou a levantar e nós fomos só andando mesmo pelo calçadão. Quando início-de-casal, a sensação é de que tudo que vemos está sob nosso poder e que a vida inteira é muito hedionda, falta mais do nosso afeto nela.
  Ao cansar de andar, uma idéia maluca me ocorreu e eu fui deitar na areia. E você me deu uns muitos beijinhos pra sarar minhas dores, deitou ao meu lado e nós rimos. Rimos tanto que nem percebi quando o dia virou noite. A gente nem ligou para a areia sujando nossas roupas e tudo mais. Na leveza do nosso riso natural acabei falando besteira.
  Não é que você nunca tivesse ouvido, mas acho que você nunca levou ninguém muito a sério. Por causa disso, você esperava num momento especial e eu falei logo, deixei escapar, saiu por entre os dentes e estraguei tudo.
  Também não fiz as coisas como você sonhou. Tirei sua roupa na hora errada, fizemos tudo diferente do que você queria. Nosso primeiro beijo então. Você ficou se perguntando porque não fugiu daquele bêbado, ou “meu deus o que foi que eu fiz?”, eu entendo.
Nessa vida corrida de adultos, é difícil sentir o sossego de nem perceber o mundo girando a mil por hora. Estar debaixo do edredom ajuda, mas mesmo assim é complicado notar aquele seu abraço automático de “quero dormir mais” quando o despertador toca. Quase impossível vivenciar aquela respiração quente no meu pescoço de manhã.
  O que eu mais gosto é da sua reação dorminhoca quando faço cócegas em você na cama. Ao invés de rir, reclamar ou qualquer coisa assim, você se enrosca em mim e me segura forte e eu perco toda vontade de fazer cócegas, de levantar ou de fazer qualquer coisa que não seja só sentir aquilo. Sentir você enroscando em mim, como se fosse uma gatinha.
  Lembro do dia em que acordei na sua casa e nós decidimos que éramos as pessoas mais importantes do mundo. Tão famosos e queridos que é melhor nem sair de casa. Melhor nem sair do quarto, ou até mesmo do edredom. E nesse dia, na melhor quinta-feira da minha vida, a gente simplesmente faz assim, desse jeito, diferente. Eu mal consigo esconder o que quero dizer. No final, eu sempre acabo te falando de novo, de novo e mais uma vez, sem timing nenhum. E você na sua maestria do tempo nem achou o tempo certo de me dizer isso até agora.
  No final daquele dia, você disse que a gente podia fazer o que quiser. Eu rebati que mesmo assim, no máximo eu poderia ser eu mesmo, sempre. Você riu, dizendo:
  – Mas você mesmo é perfeito, só isso, apenas perfeito. Pra mim.
  É aí que eu não sei o que dizer, embora você saiba o que eu estou pensando e isso só acaba com o charme da hora certa de dizer as coisas. Nós nos conhecemos a tão pouco tempo.

  Então guardei esse texto para ver se dessa vez eu acerto. Porque eu não sei quando eu você lerá isso, nem o que fiz ou fizemos para eu enfim te mostrar.
  Se estamos brigados, por favor, me chame de idiota, diga que eu sou o cara mais idiota do mundo e me convide para deitar ao seu lado, no conforto do edredom, matando uma quinta-feira cheia de trabalho outra vez.
  Já cometi erros, aprendi que a palavra dito não tem remoção e que o segredo é saborear ao invés de apressar planos para o fim. O que eu quero te dizer é algo meio sujo de areia, meio dengoso. Eu não sou assim tão contido quanto você e só queria repetir. No tempo certo agora. O que ecoa sem parar dentro de mim:
  Te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo –
  te amo e não quero estragar tudo como faço sempre.

 

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7 comments

  1. Rita Schultz · Junho 10, 2011

    Muito bonito, garoto!!
    Um beijo!

  2. Ana · Junho 15, 2011

    Muito lindo!!
    Entrou pra minha lista de melhores..
    (ainda perdendo pro mais lido !)

  3. iarinha · Setembro 5, 2011

    lindo demais!

  4. Beatriz · Março 25, 2013

    Gato adorei
    Bizarro é me fazer lembrar de duas pessoas ao mesmo tempo…mas mesmo assim lindo ^^
    QUERO SEU LIVRO D-E-F-I-N-I-T-I-V-A-M-E-N-T-E

  5. Ziggy · Agosto 17, 2013

    Um acho, esse teu blog. UAU!

  6. mahvuolo · Março 8, 2014

    Apaixonante…

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