Bicicleta

Quanto pesa um sentimento?
  Tem a semana e os dias lotados de coisas para fazer. E eu me pergunto quanto tempo pesa uma decisão simples. A bicicleta e a brisa, o sol e a morosidade. Se me dá na telha, não me pergunto se faz diferença mudar o caminho normal pelo alternativo; nem nunca me pergunte se vale a pena dormir mais cinco minutinhos.
  Qual é o peso do cotidiano? O dia não desenrola igual se o sol não estivesse assim, se o céu acordasse cinzento. Nem se o calor fosse sem brisa. A bicicleta virasse engarrafamento. E tem a pressa. O trânsito é pesado, são setenta e cinco mil carros por dia garganta abaixo. Aparece na gentileza, mas não é sobre isso.
  Não me surpreende que a raiva pese tanto. Que o ódio pese tanto. Dependendo de como você segue o fluxo dos dias naturalmente, até o amor pesa demais, mais do que devia. Não só o amor: o flerte, as faíscas, as rodas da bicicleta que giram juntas sem se tocar. Peso cansa — todo tipo de peso, seja a barriga, seja a culpa ou tudo mais que sofra a influência da gravidade.
  O que você leva consigo todo dia? O mundo está te puxando pra baixo do momento em que você acorda até quando vai dormir. (No meu caso, especialmente quando eu acordo.) É preciso mais do que força para não ficar pra baixo, down. É preciso de uma noção de tempo e espaço para notar que os dias passam um de cada vez — isso depende de você, a diferença entre ler um livro e ler um livro para fazer uma prova daqui a trinta minutos.
  É tão fácil catar os dias, o difícil é manter uma consciência firme. A gravidade não é tão grave quando existem uns copos americanos. Metade vazios quando já brindamos e demos o primeiro gole, um gole de sede, metade cheios quando já estamos no fim da garrafa e dividimos as gotas finais. Entre metades, lá se vão uns minutos que provavelmente só duraram meio minuto. A gravidade já nem existe aí, quando há música, e todos os sentimentos já não pesam tudo aquilo. E o se o sono chega é pela leveza do sonho precedido por um gole a mais, um beijo, uma escangalhada de risos.
  É tão fácil, tão fácil que é complicado. Como a gente sai de um engarrafamento e chega a cantar usando um pente (ou um shampoo) como microfone? O sangue, o sujo, a bagunça, a arrumação, o cabelo, a mudança, a pança, a pança! O carro enguiçado, dormir de lado, um trecho rimado: papel pardo, uma carta, tia Marta! A Europa, o Japão, Roberto Carlos, Dona Canô, o dólar, as crianças, mais panças.
  Tudo corre como um rio, sim. É que, com o sol na cabeça, o barulho-ritual da lata de coca-cola ou cerveja, a construção de mais um prédio em Niterói… com essas coisas, o rio fica cheio de curva, alaga de vez em quando. A memória é fraca e só se lembra de esquecer os compromissos, esquecer que um dia parado na ponte não é um dia perdido, um dia passado, é um dia inteiro como todos os outros.
  Quanto pesa o meu próprio desespero? De fugir dos limites do meu corpo, de sair do aperto de uma consciência presa a tempo e espaço como se fossem uma camisa de força. Quanto pesa isso? Quanta pesa a própria incompreensão?
  Incapaz de viver uma vida de altos e baixos, eu já me acostumei. A minha felicidade é cheia de tristeza. O cansaço me atinge por igual, mas diferente: a minha tristeza é ampla demais para ser, existir assim, nomeada num sentimento tão vago. É uma tristeza que chama todos os órgãos para participar, como se fosse uma festa, e os órgãos vão-não-vão: ninguém vai, porque a festa da minha tristeza já está lotada. De felicidade, talvez.
  O peso disso tudo me derruba para além do chão. Mas só quando estou já pra cima do décimo sexto andar — o dia perdido será o dia da minha morte, apenas. Só de sacanagem, eu vou morrer às 23:59. E vou levar todos esses pesos que se misturam e se somam à gravidade, pesos que minha bicicleta aguenta com facilidade.
  Então, o que você vai fazer?
  O que você vai fazer agora, daqui a pouco, hoje a noite? De madrugada? Eu sei que dormir é preciso, nem que seja até mais tarde.

 

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