castanhos

  ela costumava perguntar o que eu estava pensando. pela primeira vez na minha vida eu fui sincero o suficiente para não responder.
  os ponteiros dos meus pensamentos resvalam no meu cérebro apertado; pensar confunde e confusão transmite-se. ao invés disso, ela fez uma pergunta mais violenta
  “pra quê serve a gente?”;
  compro tempo digerindo em voz alta a pergunta “a gente as in eu e você?”
  “é”, ela responde. não sei. tento saber.
  acabo dizendo que não sei mesmo.
  a postura dela chama atenção. um prédio, não. havia gosto. e a sensação da tempestade de areia. a língua corre delicada e cuidadosa pelos sulcos e arrepios das costas, percorre todo o sabor,
termina numa respiração no pescoço.
  coluna ereta; olhar imprevisível. um animal selvagem apreensivo:
  um leopardo ou uma onça. os olhos calmos e espertos. nos livros da estante.
  pupilas como florestas inteiras.
  eu não conseguia decidir se esses olhos estavam decifrando o enigma da vida ou só planejando a próxima vítima.
  uma gazela ou uma zebra. eu.
  ela poderia vestir uma blusa lilás; seria leve, o terror negro do seu cabelo preto preso comprido sobre a sua tez branca tão branca;
  ela poderia vestir uma saia também branca e nós poderíamos dançar. se ela me olha como um rio que desaba sobre mim, não me perco. não abaixo a cabeça diante do olhar dela. apenas ando em direção a cadeira elétrica.
  o olhar dela é a minha cadeira elétrica. a minha falta de sono.
  não, ela vestia uma blusa azul de manga comprida e um short jeans.
  ponho a minha mão no fogo pela ilusão. o silêncio não se sustenta e nós caminhamos na areia de um corredor estreito.
  de tão estreito estamos tão perto um do outro. sem nos confundir num só.
  ficamos mais perto que parece possível ficar.
  o grão de areia, vidro. vamos de uma ponta a outra sem pisar em nada sólido; vamos de uma bebedeira até o chocookie desejado. em meio a risadas irônicas, a luz estoura.
  a violência brota dos dedos compridos dela, a violência paira na sua atmosfera felina para terminar num caminho de fogo, num choro e numa aprendizagem.
  —hunts me down: the white leopard runs faster than I can begin to think.
  bites me in english. bites real hard.
  seus dentes fincam na carne e puxam
  até um pouco mais de dor;
  o corpo esvaziando-se. até o seu olhar de leopardo fingir-se satisfeito;
  violence: um carinho e um tapa, um beijo e um dano —
  as horas fugiram numa revoada alçando vôo,
  uma
  a
  uma
  com asas agressivas, sem se importar
  e nós não nos atrasamos para os próximos compromissos.
  observamos uma árvore frondosa submersa. os galhos tem dedos cheios de esperança. imóveis todavia. no brilho da superfície nota-se que tanto os magros quanto os gordos ficam famintos.
  a árvore prende-se e faz todos se perderem: torna a discussão inútil: o que é verde/ o que é azul/ o que é mar/ quanto é amor.
  depois de um salto, um olhar selvagem
  ela me domina. me diz do alto “você é um idiota” e eu concordo. me controla e perde o controle sobre si mesma.
  (um presente mas só percebo tarde demais.)
  os ponteiros do meu cérebro já erraram faz tempo, os da parede não falham;
  eu brinco com ela. são onze horas. hora de ir embora como todos os dias. é um piso no conflito: ela tem caninos brancos e tem instinto por sangue.
  ela brinca comigo. sua brincadeira leva garra e perigo; “eu amo você
  me desprezando terrivelmente assim.”
  um elástico a menos e o cabelo corre, a cabeça hipnotiza num momento em que todas as coisas baixam a guarda:
  os livros de português baixam a guarda, os aparelhos da polishop baixam a guarda, as almofadas baixam a guarda
  e eu não sou exceção. baixa-se a guarda quando os dentes mordem o elástico e a nuca se desvencilha da gola e desnuda-se num arrepio que desce o corpo.
  o corpo errado.
  a portaria é um carrossel. da mesma forma que o pote vai resistir, deus também vai e o meu cavalo não chega nem perto.
  o corpo inventa de ficar vermelho e doer todo. faço os cálculos certos para chegar às respostas erradas;
  os braços, as pernas, a língua dela desprendem-se de qualquer cálculo. pergunto a probabilidade e ela sabe a resposta — são probabilidades altas de arrependimento. sabe a resposta e sabe que nossas contas são feitas na matemática dela. distorcida e selvagem.
  muito além do tempo, ela não quer que eu volte mas também não quer que eu vá.
  je m’imagine rouquin. en train de parler français. avec ma barbe. le mercredi matin. en face de son bâtiment.
  por mais que tentem a mão é humana, os dedos são reais e não aguentam como nada aguenta.
  “então, pra quê serve a gente?”.
  agora. eu e você não servimos pra nada. por um tempo.
  a pele branca. onça. leopardo. violência não, dor. os pequenos olhos semicerrados e a certeza causam mais daquele machucado sem nome.
   so, what.
    i love you.
     are you afraid?
      no.
       then what’s the problem?
  that’s the whole problem: i am not afraid.
  as pupilas como florestas inteiras. em chamas. estou cercado.

 

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