Memórias de abacate

Num segundo nós estamos comendo abacate e estudando química — lendo sobre a lei de Avogadro (ou Lei de Adevogado, como eu chamava; ou Lei de Avocado — isto é, abacate em inglês, como você chamava). A gente ia lendo e comendo (de colher), quando você me via comendo muito, parava de ler pra ficar só comendo e eu dizia “agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo” e você ria, mas como nenhum de nós sabia Química, a gente acabava voltando pro começo. No próximo segundo, você ainda está no mesmo lugar, porém seus olhos estão cheios de lágrimas e eu estou com minhas coisas e indo embora. Indo pra casa, alguns quilômetros dali, não pra Paris ou Londres.
  Outro segundo vem, e nós estamos caminhando na praia, tímidos, querendo falar alguma coisa, mas com medo de… do que a gente tem medo quando não conhece aquela pessoa do nosso lado, sabendo que um dia ainda vai conhecer. E então, eu pego uma margarida e te digo que você é tão linda quanto aquela margarida. Você sorri tímida tímida e diz que eu sou bobo bobo. No segundo seguinte, você não está usando sua blusa roxa, você não está usando nada. E me pergunta, com a cabeça no meu peito “Por que você me ama?”
  No próximo segundo, nós estamos olhando para o céu azul. Tão azul que engole a gente na azulzice dele. O problema é que eu sou muito desligado e o meu sorvete pinga na sua roupa e você briga comigo e quando você faz isso, seu sorvete cai no chão e você briga comigo de novo. Mas eu estou rindo, assim crescemos juntos. Vocês está furiosa, as coisas são assim mesmo. No segundo que vem, você está brava e diz que eu não entendo as coisas. dessa vez eu respondo, digo “Eu gosto disso, dessa coisa de não entender… nem saber o que vai acontecer.”
  Nesse segundo então, nós estamos deitados juntos, comendo pipoca e assistindo a um dos filmes cult que você tanto adora. Um do Fellini, um bem maluco. E eu tento te dar um beijo e você me ignora no momento importante, mas logo depois me abraça e me beija. E depois do filme, você tenta explicar e eu digo que prefiro não entender, o filme foi lindo do jeito que foi. Não importa. E a gente se beija. E um segundo passa, e lá está você olhando séria pra mim. Dizendo que acha que não sente mais nada. Não sente mais as faíscas do amor. Não me ama mais.
  Eu abro os olhos e o segundo seguinte dura algum tempo, porque dessa vez eu estou descendo a escada chorando. Sim, homens também choram. E era quase noite, e eu queria morrer. Nesse momento, a gente fica pensando qual é o sentido da vida. Eu tenho certeza que a minha felicidade ficou contigo e a sua comigo. No outro segundo, uma idéia vem à minha cabeça. São quase sete horas, eu corro até o hortifruti. Eu quero uma última chance, digo a mim mesmo. E assim, no segundo adiante, eu estou subindo as escadas. Eu bato à porta. Você abre. Você está usando sua blusa roxa favorita.
  “Vá embora.” Eu respondo que só quero que a gente coma um ultimo abacate juntos. Só isso. “Não, por favor, vá embora…” Eu insisto que dois anos e meio não devem acabar com lágrimas tristes, mas sim com boas memórias. Você resmunga, mas depois me deixa entrar, contanto que a porta fique aberta e eu vá embora logo em seguida. Tudo bem.
  Nós estamos comendo sem nos olhar. Você ainda tem os olhos vermelhos. E eu o coração partido. O abacate não tem o gosto bom que tinha antes. Eu puxo o abacate só pra mim e começo a comer sozinho. Você briga comigo e puxa da minha mãe e começa a comer o que falta sozinha. E enquanto você está com cara de brava, eu só consigo pensar em uma coisa.
  “Seis vezes dez elevado a vigésima terceira potência.” Eu falo. Você pára de comer. Olha pra mim por um único segundo e diz “Quê?” Eu respondo “O número de Avocado!” E, um sorriso mínimo aparece no seu rosto. Eu continuo “Agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo.” No segundo seguinte você ri, ri tanto que sua barriga dói. Você me chama de bobo bobo. Eu sorrio, levanto, fecho a porta e apago a luz.

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