Nathália?

  E as pessoas foram embora aos poucos. Teve filme, teve foto, teve lágrimas. Teve a banda de novo (era fraca, o vocalista tinha um bigode de porteiro e voz de Papagaio). Uma tia se empolgou e começou a girar o sutiã no ar numa música do RPM. Eles tocaram todas aquelas músicas. I wanna hold your hand, great balls of fire, twist, tutti-frutti, dancing queen e por aí vai. No final, sobramos nós, sentados no chão, suados, com roupas frouxas. Uma pequena chama na escuridão e eu ofereço.
  Quer um cigarro?
  Ela aceita. As últimas pessoas começam a se despedir.
  Como vão seus comerciais? A pergunta me atinge de surpresa.
  Fiz um que você iria gostar.
  Nas moléculas da fumaça entre nós, aquele cara imberbe segura a morena magricela. O lençol da cama é azul e está no chão. Os gemidos dela, o barulho da cama e o homem faz uma careta. E eles param de se mexer.
  Que foi?
  Nada, é assim “tu-duh tu-duh tu-duh é titânio, é Zanic! Tããã Melhor do que ferro, alumínio, aço. Tu-duh tu-duh tu-duh Mais forte que o Titanic!”.
  Ainda não vi esse.
  Deve ter ido ao ar hoje, ou ontem.
  Um sopro cinza recria o sorriso do rapaz pelado, e o rosto espantado da menina. Que foi? Nada, acabei de pensar num jingle. Canta pra mim. Ele pega a guitarra e toca algo que parece um gemido e depois fala “é pra um comercial de camisinha” e ela ri.
  Mas as brasas caem no chão e eu lembro que não consegui achar as palavras corretas naquele dia, que poderia ter sido tão importante.
  Tô com a cabeça em outro lugar, tô pensando em algumas coisas…
  Ela olhou pra mim e perguntou como ia a vida em São Paulo.
  Eu prefiro o Rio, lá onde eu to morando tem engarrafamento demais.
  Me sinto, de fato, numa garrafa. E estão despejando vinho em mim, já está na altura da minha cintura.
  Ela disse que eu estava um pouco alto. Concordei com a cabeça e acrescentei: bebida de graça, graça. A maior graça dos casamentos.
  Quem diria né, que Poly & Luiz chegariam a se casar, quanta sorte, né?
  Eu respondi que não se tratava de azar, mas sim de convicções. Slogans. Você olha para a sua namorada e vem a sua cabeça: viva uma vida confortável ao lado da sua mulher. Casamento é a palavra chave. Seus amigos vão te achar um máximo e a sua mulher será super feliz! Quer ficar pra sempre com aquela que abala o seu coração? Case-se já!… Sabe, esse tipo de coisa que as pessoas idealizam. Entenda melhor. Qual é a filmografia da sua vida? Se você gosta de filmes com gente casando, você casa. Você é propriedade da sua mulher.
  Deixa de ser machista, homem!
  Eu, machista? Só to dizendo que não se trata de sorte.
  Ela discordou de novo e explicou: Tem países em que as pessoas são casadas no nascimento, sabia?
  Besteira, eles não tem solteironas de 30 anos lá. Você terá azar se nascer, ao invés de gente, porco. Eles não têm capacidade física de olhar para o céu. Imagine viver sem esses pontinhos luminosos.
  Ela sorriu com a cabeça virada para o chão.
  E aqui no Rio, como está tudo? Eu devolvi a pergunta dela.
  Tá tudo direitinho, no lugar. Acho que a maré está pra virar, as coisas vão melhorar agora, eu sinto.
  Você sente? Seria minha presença?
  Deixa de ser bobo.
  Caviar, meu bem,…
  Não me chama de Caviar.
  Eu sou um prêmio e você é um achado! Não existem mais mulheres boas como você por aí… Nathália.
  Desde quando Antônio, o homem que mais preza por liberdade no mundo, está interessado em compromisso?
  Eu joguei o cigarro fora, uma rajada de vento levantou minha franja, e na escuridão do fim de festa eu respondi: você sabe.
  Algumas pessoas passaram e se despediram de nós dois. Abraços e sorrisos e atés. O silêncio se instalou. A banda já havia tirado todo o equipamento. Eu falei que ela tinha engordado.
  Nathália riu e respondeu Você não aprende mesmo né? Só se deve comentar se for alguma coisa boa!
  Balançando a cabeça, eu repliquei Não, eu digo as coisas quando é verdade.
  E aquele era o momento perfeito, eu busquei as palavras. Mas quando o cara de bigode de porteiro e voz de papagaio pôs a mão no ombro dela eu me dei conta que eu nunca soube aquelas palavras. Ela o beijou e se despediu de mim. Eu fiquei quieto e acenei. Não sei como estava o meu rosto no momento, acho que meus olhos brilhavam na escuridão. Uma fina película aquática. Os recém-casados não tinham ido embora – iam viajar em lua de mel no dia seguinte, a tarde. Luiz veio falar comigo.
  Tudo bem, cara?
  Acho que sim, eu respondi.
  Abaixei o tom de voz e perguntei se ele gostava do filme 4 casamentos e 1 funeral. Ele disse que sim. Eu nem precisei perguntar se ele amava a Poly, isso, essa informação inútil, eu sabia.
  Era uma vez um garoto idiota e seu melhor amigo inteligente. Luiz ficava nervoso olhando para uma menina numa mesa perto da nossa. Eu disse a ele que ele arranjava coisa melhor, mas o rapaz estava bem determinado. Então, falei pra ele ir lá e chamar ela pra dançar ou conversar. Ele ficava repetindo: Talvez a gente poderia dançar… Talvez a gente pudesse dançar…. Talvez a gente… Luiz parou a uma mesa dela, fechou os olhos e deu o passo seguinte repetindo o que iria dizer. De repente, bateu numa garota bonita. Ela ouviu o que ele disse, mas perguntou “Desculpe, o que você disse?”. Mais branco do que nunca, o garoto idiota de 21 anos responde “Talv… É… Dança. Dançar?” Eles dançaram.
  E foi assim que eles se conheceram. Os felizardos marido e mulher. Parece até filme.
  Nostálgico esse final de festa, né?
  Não respondi.
  Lembrei de muita coisa que a gente passou junto, lembrei também de quando eu conheci a Poly.
  Eu abaixei a cabeça com um sorriso ligeiro no rosto. Lembra quando eu fui pra Sampa?
  Lembro bem, o diretor geral adorou seu jingle para o comercial da camisinha…
  É.
  Me lembro daquela folha com o espaço para a minha assinatura. Aquilo foi feito às pressas, o diretor precisava de pessoal urgentemente na matriz paulista. E eu, precisando, aceitei.
  Você teve que ir…
  É.
  Você acha que a Nat…
  Não sei, eu nunca consegui falar o que eu queria pra ela.
  Uma chama e eu ofereço a ele.
  Quer um cigarro?
  Não, a Poly me fez parar de fumar e tomar café, depois do clareamento dental.
  Ah, certo.

  No dia seguinte, eu senti uma angústia inexplicável. A culpa, de quem era a culpa. Acendi um cigarro e, ainda sonolento, pensei como era difícil não ter quem culpar, nem quem se desculpar. Traguei o cigarro com paixão. Olhei pela janela o dia cinza. Foi quando eu tive uma idéia para um novo jingle.

[c. 09/12/08 – t. 06/05/12]
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2 comments

  1. Danilo Crespo · Maio 6, 2012

    Considerações: 1. Originalmente chamado de “Times New Roman”. 2. As alterações do original: cortei quatro parágrafos e acrescentei o parágrafo final. 3. Nenhum nome de personagem foi alterado (Sim, já se chamava Nathália).

  2. Pedro Lopes · Maio 8, 2012

    O tom despretensioso e quase blasé de seus protagonistas me trazem sempre uma liberdade muito grande, cara. É como se fosse um conselho simples de ”vai lá, pode ser o que você quer ser, essa é a vibe”.

    Nunca vou saber se parabenizo ou se agradeço!!

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