Carta III

 
Segue mais uma carta desse casal desencontrado.
  
 
Gustavo,

Escrevo para dizer que precisei ir ao seu apartamento. A síndica me ligou, falando de um cheiro de gás no corredor e que poderia vir de lá, pois você estava viajando. E eu nem sabia que você estava viajando! Sorte a dela, a sua e a dos vizinhos histéricos que eu ainda tinha uma cópia da chave.
  Ao entrar, me deparei com inúmeras correspondências no chão. Pelo visto, você não está aqui há um bom tempo. A síndica não me disse nada e pelo visto, não sabe o que aconteceu entre nós, depois daquela última vez que a encontramos na garagem. Lembra?! Eu ri por dentro quando a vi hoje… lembrei de cada detalhe.
  O gás está fechado. Já que não vou receber postais, você está onde? Saiu decidido, pelo visto. Geladeira vazia. Nada no lixo. Janelas com mínimas frestas. Não quero que pense que eu inspecionei sua casa, são apenas detalhes daquela época em que minhas correspondências também chegavam ali.
  Encontrei aquela caixinha de origami, que eu trouxe do Japão pra você em cima do balcão da cozinha. Não lembrava. Menos ainda do bilhete. Emocionei, travei. Foi como se eu olhasse num relance, um pedaço de minha imagem ao passar por um espelho. Voltasse e confirmasse. Sim, aquela mão no espelho, é minha também, mesmo não me pertencendo.
  Sentei no sofá cor de café. Você tinha dito que ia mudar a cor, desistiu? Trocou pela viagem. Eu sabia que você faria isso.
  Ninguém tem o direito de entrar na casa alheia para querer parar de passar pelo tempo.
  Eu espero que você esteja bem, como seu apartamento está. Limpo e sereno.
  Fiquei chocada com meu bilhete. Quanta coisa bonita deve ter naquela sua gaveta.
  Você foi uma das mais intensas paixões que me permiti viver.
  Sorte minha você não estar em casa.

 
                                                                                                  Clarice
 

Anúncios

3 comments

  1. Gustavo · Janeiro 26, 2011

    Clarice,
    Não tive coragem de jogar as cartas no lixo. Então eram elas ou eu. Saí.
    Ainda encontro resposta para o tal dilema da modernidade, afinal, sabes como sou idealista. Fique bem.
    Gustavo

  2. Nina Sö · Janeiro 28, 2011

    !!!

  3. Nina Sö · Janeiro 28, 2011

    Meus amigos estão rebeldes, correndo a frente de mim!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s