A Orquestra Mágica das Luzes [parte 2]

 

  Olhei para o céu. Noite. Trovoadas. Nuvens. Mas não chovia.
  Eu estava num bar, no segundo andar de um prédio, tomando um drink, segurando a carta que ele me escreveu. Eu não chorei enquanto lia. Terminei de beber minha gin tônica. Pedi mais. Aí me machuquei, com o Gin passando por entre as pedras de gelo e a água tônica depois, do mesmo jeito.
  Nunca me esqueci dele falando que a gente tinha que ser como água: disforme. Num copo, a água é o copo. Numa garrafa, a água é a garrafa. Eu lembro bem. E talvez ele seja o motivo da minha facilidade de adaptação. Eu sempre segui isso. E fui fluindo. Como um rio. Como ele dizia que tinha que ser.
  Mas ele ficou lá, a mais de 7 mil quilômetros. Eu fluí pra longe dele. E eu nem percebi. E eu bebi todo o gin com tônica. Eu fui para a janela e olhei aquela cidade iluminada. Tão iluminada. Olhei pra baixo. Dois andares matam. Mas eu não fiz isso. Fiz melhor, fui embora.
  Chamei um táxi. Fui ao meu lugar especial. Lembro dele tão bem, mas tão bem, que tento fingir que estou pensando em coisas boas da gente, a verdade é que minha cabeça está naquela carta triste, tão triste. Senti frio. Estava frio mesmo.
  Tentei não olhar pela janela, ela refletia um pouco meu rosto. Não queria ver meu próprio rosto. Nem ali. Muito menos num retrovisor. Eu o veria do jeito que ele descreveu. Ia me sentir pior. Tentei pensar na cidade. Nas luzes, quantas luzes. Lembrei que essa foi a primeira coisa que eu pensei quando cheguei aqui. Quanta luz.
  Não chovia. Mas o taxista tentando quebrar o silêncio, falou que ia chover. Eu disse que maybe. Mas que maybe not, também. E ele ficou quieto. E eu também fiquei quieta. E a cidade ficou para trás, acesa e nunca quieta.
  Saltei perto do lago e quando cheguei havia um milhão de vaga-lumes. Tentei não olhar para o lago, eu era o lago, eu era a água, eu me machuquei desse jeito, com os pingos de chuva cortantes, de chuvas passadas. Fluí demais talvez. Observei os vaga-lumes.   Várias luzinhas. Piscando. E aparecendo. E se movendo. Como num sonho. Como o que um filme com orçamento bilionário tentaria copiar, mas que soaria falso. Jamais algo seria tão verdadeiro quanto os vaga-lumes.
  Eu estava chorando e nem percebi. As lágrimas me cortando o rosto. Mas eram as luzes mais bonitas que eu já vi. E trovejou mais uma vez. A carta já estava toda amassada na minha mão. Os vaga-lumes piscavam numa sincronia orquestral e só faltava uma música sair das suas luzes.
  Você tocando violão. Cantando em backing vocal. Tentando remendar minha voz desafinada. Essa era a música que eu ouvia, mesmo sem ter controle sobre aquilo. Uma lágrima chegou na minha boca. Salgada. Talvez as lágrimas não estejam me cortando, talvez elas estejam cicatrizando o que já está em pedaços. Nosso dueto soou mais alto no meu ouvido no balanço dos vaga-lumes: era uma orquestra. Eu a nomeei a Orquestra Mágica das Luzes. A melhor orquestra de todos os tempos, mesmo com minha voz desafinada e seu violão de cinco cordas.
  Meu celular tentou interromper aquilo tudo. Desliguei o celular. Desliguei as pessoas que me procuravam. Todas elas. Inclusive ele. Desliguei. Eu não precisava de nada disso. Eu sou um rio, uma lagoa, eu sou água. Num copo, eu viro um copo. E eu não preciso me preocupar com a distância. Ela nem existe, eu já saí de lá, e eu nunca mais vou voltar. Como uma pedra, não, uma pedra parada, não.   Eu sou uma lagoa. Um rio. E eu não me importo com o tempo.
  Nem acho que vai chover. Não me importo se chove. Talvez chova, talvez não. Talvez eu volte, talvez não. O que eu sei é que preciso ir pra casa. E o resto se resolve sozinho.
  Se eu sou água, sou rio, sou lágrima, o que acontece quando o copo cai no chão e quebra?
  Deitei na grama. E sem me preocupar com o tempo, com o ontem, com o casamento, com nada… Evaporei.

   

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6 comments

  1. Bella · Fevereiro 10, 2010

    Lindo texto. Mesmo.

  2. maracuja · Fevereiro 10, 2010

    tinha q ser um texto feliz com esse titulo =/

  3. Anamel · Fevereiro 17, 2010

    Muito, muito, MUITO bom!!!
    Se o texto me causou tantas sensações, já basta.

    E citando Marisa Monte: “Inunda o mundo, o barco é você” :)

  4. maracujá · Dezembro 29, 2010

    =} li denovo =}

  5. Lucem Fero Dei · Janeiro 16, 2011

    Bravíssimo!!!

    Adoro um drama. Um sentimento que toma e arrebata um espírito, consumindo e se tornando o próprio ser. O sofrimento traz renascimento, que traz mais força e beleza.

    Obrigado pelo texto.

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