Corte limpo

 
Sentados juntos, na madrugada do dia 18
Tomamos chá (quer dizer, ela tomou) às duas horas da manhã
Ela disse que andava andando triste
E eu disse qualquer besteira
Ela disse que estava irritada (por causa dos mosquitos)
E eu disse qualquer besteira
Ela não é assim, ela dizia pouco
E eu aí também não disse nada
Eu disse que ela devia raspar o cabelo
Ela disse que faria isso amanhã
Ela disse que tinha uma condição:
“você vai ter que me mandar mensagem todo dia dizendo que sou linda e que os homens que não me querem mais são cegos.”
E eu disse que faria meu moicano na quarta,
porque em relação às mensagens: eu mandaria todo dia, uma de manhã e outra de noite, intercaladas com outras em espanhol.
(como: “Te quiero” e “¡Que chica hermosa!”)
Ela disse que eu era uma fofura
E eu voltei a dizer bobagens
Ela disse que estava com medo, mas não sei do que era.
O silêncio falou mais alto que a gente.
E depois a gente falou umas bobagens.
Ela disse que o momento passou e que ia embora.
Eu não lembro se falei algo, provavelmente só as bobagens.
Ela perguntou se eu queria dizer algo.
Eu disse: te quiero.
Ela respondeu: aonde?
Depois riu
e foi embora de vez.
E sozinho, sem chá, na minha cozinha, sem o quarto dela,
eu cortei uma maçã na metade.
Não gosto de chá, não quero o que penso e não faço sentido:
desaprendi a viver.
Me desculpem, me desculpem, me desculpe, me decupe,
me decupe
me decupe
me decupe.
 
 

Anúncios

One comment

  1. Bárbara · Outubro 18, 2010

    Não entendi a do “decupe” mas achei fofinho! <3

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s