As formas invisíveis

 

  De longe, enxergava algo como um vulto avermelhado, turvo por causa da ilusão evaporizante das ruas asfaltadas. Enfim, chegou e parou o carro.
  A estrada pela qual o rapaz viajou durante longas horas terminava num lance de quatro degraus; que por sua vez davam numa parede de tijolinhos vermelhos, numa casa sem janelas de dois andares.
  Depois de tanto tempo solitário, em alta velocidade e com vento na cara, os sentimentos de ansiedade pelo resultado da busca se tornaram decepção com a ausência de porta do estabelecimento. Não havia caminho a seguir.
  E os pensamentos corriqueiros começavam a tomar o lugar da imaginação de qual seria o resultado daquela busca impulsiva. Era dia de semana, e ele devia estar na faculdade, no seu estágio, fazendo… Absolutamente nada (Ou você considera ficar o a tarde toda sentado tomando conta do “achados e perdidos” e de mochilas e bolsas guardadas alguma coisa?). Ele não queria estar ali com essas coisas na cabeça. Ele não queria isso. Estava isolado demais para encontrar-se no meio dos próprios pensamentos, não tinha como enfrentá-los.
  Em suas mãos uma revista dos anos 80 caía aos pedaços. Nela, um endereço anotado à hidrocor verde sobre um artigo que explicava as complicações do câncer de intestino.
  Olhou para o relógio no pulso. Saíra de casa às cinco horas da manhã, já eram três da tarde. O sol castigava a pele branca, e havia suor na testa coberta pela densa franja do rapaz. Sentindo-se enlouquecido por ficar mais de meio dia sem se comunicar com vivalma, ele queria encontrar um pouco de simpatia num sorriso alheio, não importava em quem fosse, precisava ouvir voz humana e… Um pouco de sombra seria ótimo.
  Devido à posição a hora do dia, a região da casa em que haveria um pouco de sombra era os fundos. Não havia cerca, então ele apenas deixou seu carro parado lá na frente e contornou a casa pelo vasto gramado. Não havia nenhuma construção adjacente, o horizonte era de pasto e havia um planalto bem próximo.
  Avançou em passos lentos. Para sua surpresa, onde a temperatura estava mais agradável, a sombra, existia uma grande piscina.
Do fundo das profundas águas vinha essa voz feminina e cativante, que envolvia os ouvidos de maneira confortável, relaxante… e familiar. A voz declamava uma bela poesia. Sem fazer som, ele inclinou seu corpo em busca de algum vulto no fundo da piscina.
  Enxergou enfim uma imagem tremelicante de algo que parecia ser uma pessoa, algo que pareceu conhecer, mas seu cérebro se recusava a lembrar por completo. E no mesmo tom e na com suas palavras quase hipnóticas, ela começou a declamar o tercetos daquele soneto.
  O primeiro impulso que tivera nesse dia o levou a pegar a estrada numa segunda feira, por causa de um misterioso endereço dado a ele pela… Quem foi mesmo que lhe dera aquele endereço?
  Agora, pulou na água de roupa e tudo. Lá conseguiu enxergar aquela mulher. Não. Era só metade mulher, era… Uma sereia. Os longos cabelos louros espalhados engoliam
o seu rosto.
  Isso era real? “O sonho é ver as formas invisíveis / Da distância imprecisa, e, com sensíveis /Movimentos da esp’rança e da vontade,” .A voz dela flutuava sem necessidade de bolhas e ele então nadou na direção dela, queria ver seu rosto, sabia que aqueles formatos eram conhecidos pelo seu subconsciente.
   No fundo da piscina ele encontrou a mulher que declamava o poema e com um movimento afastou o cabelo do rosto dela e viu o que sua memória o impedia de lembrar: sua futura ex-mulher, com quem ele se divorciaria numa briga violenta e ela o expulsaria de casa para sempre.
  Ele não entendia sua própria mente. Nem ouviu as últimas palavras do poema. Seus lábios se uniram num beijo longo e apaixonado, daquela sereia cujos olhos lhe contavam várias história e intimidades, mas que jamais conhecera.
  O rapaz tentou perguntar algo, mas bolhas saíram sem entregar a sua voz à sereia. Ela riu do esforço inútil dele e nessas gesticulações faciais ele conseguiu reconhecer o jeito de sua finada mãe. Depois de olhá-lo por alguns segundo em silêncio, ela parecia triste.
  “O que são lágrimas dentro de um oceano?”
  De repente, ele se tocou que lhe faltava fôlego e nadou velozmente para cima. Mirava um horizonte puramente branco, mas ainda assim ondulante e instável.
  Segundos antes de se afogar, ele olhou para a sereia, mas lá havia apenas uma revista dos anos 80 que sua mãe comprara logo depois de descobrir que tinha câncer; e um hidrocor verde que uma moça, cinco anos mais velha que ele e formada em artes, iria procurar nos achados e perdidos da faculdade onde ela dava aula.

[J.D. Crespo – 28/02/2009]

 

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