O peso da espera

 
(em co-autoria com Vona Bor)

  Enquanto esperava o trem o livro me fazia companhia. Isso não significa que eu o lia ou me orgulhava em tê-lo em mãos, pelo contrário, mais um peso inútil nessa outra viagem.
  As memórias recorrentes não permitiam concentração para leitura, tampouco a queria de fato. A linda moça, o casal com filho pequeno, adolescentes correndo pelo grande átrio da estação, e eu, sentado, ao lado de um casal desesperado que também me desviavam da leitura. E os guardas – com suas apáticas expressões – a observar a limpeza do grande relógio. Senti que o tempo não existe. Ou melhor, existe. Apenas está parado.
  Toda essa gente, além de outros transeuntes (quase) invisíveis, me causava enjôo, já estava cansado dessa solidão entre trilhos. A pressa daqueles estranhos estava longe de ter qualquer sentido. “Para onde iam?” Pensei. “Nem eles sabem.”
  A fantasia do desconhecido rasgara todos os meus planos: a estação me acordou para ver o tempo. São as pessoas quem passam – e não o tempo que corre. Sejam elas ou semelhantes. O novo é a repetição do mesmo e eu já não podia negar isso em mim.
  Aquelas 470 páginas, caídas no chão, me fizeram voltar ao real. “Sorte ser um livro e não folhas soltas”. Acreditei que uma simples viagem me transformaria em um homem com novas histórias. Porém, outro rumo: eu me dera conta de que a busca pelo novo não é nem boa nem ou ruim. Um simples fato da existência humana: a novidade era o velho travestido e isso já não me incomoda mais.
  Resolvi guardar o livro para sentir minhas mãos livres de qualquer coisa e quando olhei para o chão, minha mochila já não estava ali. Com divagações, minha companheira se foi. Roupas, lembranças e qualquer coisa que julgasse necessária ou útil para uma viagem já não existiam mais. Uma mistura de desespero, surpresa e raiva. Respirei fundo. Agoniado, olhei para o teto. Tic-Tac. O relógio voltara a funcionar. Tic-tac. Foi quando aquela moça que passara por mim, com toda a sua beleza indiferente ao meu desespero, que me livrei afinal de pesos inúteis que carregava. Não era o livro ou memórias ou bagagens ou fotografias ou guardanapos ou amores pesos inúteis. Mas uma vida inteira de espera. A liberdade é cada momento. Sem peso. Sem memórias.

 

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