A Vista

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Mais magro do que nunca, não conseguiu nem se alimentar direito na última semana. Naquele dia especial, que ele odiava, suas roupas eram quase bonitas: um traje semelhante a um paletó, preto com as mangas dobradas no cotovelo, camisa social amarelo-desbotado e uma gravata afrouxada marrom. Estava tudo meio gasto, principalmente a calça (da mesma cor que o paletó) e o sapato.

O rapaz de vinte e tantos anos estava encharcado, chovia muito. Seu cabelo preto, normalmente despenteado, estava junto da cabeça. Seu rosto tinha um tom sério diferente do sorriso habitual, poderia ser a chuva, poderia ser a ocasião. Não, fazia uma semana que andava assim.

Já era noite quando chegou à frente do prédio onde morava e decidiu não subir. Ele sabia o que o esperava lá em cima. Não seria a primeira vez, nem a última. Um dia maldito – que não devia ser comemorado, ele pensava. Foi andando então para outro lugar, um lugar onde não haveria ninguém e ele poderia passar a noite em paz (até a hora dos convidados desistirem da surpresa). Chovia e era uma segunda-feira, talvez estivesse até fechado.

O bar se chamava “Bar da Vista”, porque há um tempo – quando ele ainda estava na faculdade (e era quase sócio do dono) – havia uma vista pra praia, mas hoje era só um monte de prédios. Chegou logo: estava aberto. Ainda assim, o bar não era mais o mesmo. A iluminação estava péssima. E todas as mesas estavam vazias. Só havia uma pessoa lá.

E ela disse: surpresa.
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