Vibrações

 
  Eu não sei bem por onde começar… Poderia ser pelo meio da história, durante uma festa que até o momento era um fracasso. Poderia ser pelo final, dizendo como eu não consegui dormir aquela noite. Mas acho que o melhor mesmo é começar pelo começo.
  Aquela noite, parecia ser uma boa noite. Final de período. Tudo que eu queria era ir para um festa qualquer e me divertir, só tirar da minha cabeça todo o trabalho e o peso da faculdade. E então fomos, eu e um colega sair.
  Não, peraí, esse não é um bom começo. Não, “um colega” não define, de modo algum, meu companheiro de quarto – Yago. Acho que a palavra “exótico” explica melhor. Ou “esotérico”. Tanto faz. O que importa é que você entenda que ele é o tipo de pessoa que vive no meio da fumaça de incensos, cigarros (“naturais”) e macumbas (sofri com isso: durmo na cama debaixo). Ele cursa Matemática porque sente “vibrações” diferentes em cada número, em cada conta, em cada cálculo.
  Bem, de qualquer maneira, nós fomos e entramos lá no lugar que ia ser a festa – uma boate. Chegamos cedo demais e as pessoas estavam desanimadas ainda. Sentamos no balcão e ficamos bebendo Vodka. Depois de esgotar qualquer chance de conversa, Yago fez algo que eu realmente detestava: levantou de repente e sentou-se ao lado de uma mulher mais velha (devia ter uns quarenta e tantos). De onde eu estava, não era possível ouvir, mas eu sabia exatamente o que ele estava dizendo. Isso acontecia bastante. Ele estava sentindo vibrações positivas vindo dela.
  O pior de tudo e o que me deixava mais puto é que funcionava. Não sei se ele era bonito ou alguma coisa assim, mas funcionava muitas vezes isso. E os dois começaram a se agarrar de repente. Normal. E eu, claro, fiquei sozinho.
  Por um bom tempo, observei o sortudo do Yago: a mulher estava pagando bebidas pra ele e a cada momento o sorriso dele se assemelhava mais com o sorriso de orelha a orelha estilo O Exorcista. As pessoas começaram a chegar e a festa estava se animando aos poucos, mas eu era meio tímido para me soltar sozinho. Isso sempre foi um problema pra mim, nessa noite não foi diferente.
  A verdade é que eu já tinha feito muitas coisas na faculdade, mas sempre gostei de preservar minha ingenuidade (e meu português correto). Dois motivos para isso: primeiro, as garotas gostam (as mais legais, é claro) e segundo, eu sou assim mesmo, meio tímido, meio ingênuo – é difícil mudar isso. Decidi então que eu dançaria e ficaria com alguma menina. Levantei (é bem mais difícil fazer isso sozinho) e fui andando para a pista.
  Mas não consegui e desviei meu caminho para o banheiro – pensei: vou jogar uma água no rosto para ficar melhor preparado. Quando virei, esbarrei de frente para uma menina loira da minha altura e muito bonita. O tempo parou e é claro que quando percebi o olhar dela tão forte junto com o meu olhar, pensei que seria ela e que seria bem mais.
  Claro, isso se dissipou num tapa na cara. Eu estava, aparentemente, com as mãos sobre os seios dela e não notei. Juro que não notei, é verdade. Depois ela começou a gritar que eu era um apertador de peitos e eu saí correndo pro banheiro antes que alguém acreditasse nela.
  Molhei o rosto: a noite estava ficando cada vez o oposto do que eu pensara que ela seria antes de chegar na festa. Voltei e, totalmente desencorajado, sentei de volta no bar. Yago não estava mais lá, nem a amiga dele. Pensei que à essa altura do campeonato, com alguém pagando bebidas, ele já estaria sentindo vibrações de todas as pessoas da festa.
  Neste ponto, eu considerei ir para casa antes que algo pior acontecesse. Mas o lado burro da minha cabeça considerou que algo poderia acontecer ou que a festa poderia ficar animada de repente.
  Uma hora se passou, mais ou menos, até que algo realmente aconteceu e a festa parecia mais animada. Um tumulto, uma movimentação, algo estava acontecendo e foi a minha deixa para levantar da cadeira depois de tanto tempo. Não estaria sendo totalmente sincero se eu dissesse que fui pego de surpresa quando vi o Yago sendo empurrado. Ele berrava algo assim:
  “Eu tava só sentindo as vibrações do coração dela!”
  Não demorei muito pra entender que ele tinha enfiado o rosto entre os peitos de alguma garota por causa das vibrações do coração dela. Eles estava bêbado e dois caras estavam dispostos a enchê-lo de porrada. Depois de uma breve reza silenciosa, entrei no meio da confusão para levar o cara embora. Segurei o Yago por trás e o puxei em direção da saída, falando para ele que ele estava passando mal e que tinha bebido demais e que a gente tinha que ir pra casa. Um erro que eu jamais cometerei outra vez.
  Um grito histérico veio de alguma garota por perto, um grito familiar. A menina loira apontou pra nós dois e nos chamou de “loucos por peitos” Eu nem pensei duas vezes e comecei a arrastar o cara do jeito mais rápido que eu pude. Um corredor se formou no meio das pessoas e pelo olhar da cara de cada um, eu me senti na Polônia. Até hoje não sei como a gente saiu de lá vivo.
Do lado de fora, depois de correr com um bêbado em estado de marionete chamei um táxi e desaparecemos do lugar e chegamos em casa.
  Depois de percorrer três lances de escada (em vinte sete minutos) com um bêbado que não queria subir a “Stairway to Heaven”, eu dei um banho no Yago – puto da vida e sem acreditar direito nas coisas estranhas e insólitas que tinha acontecido. Conduzi meu companheiro de quarto para a cama dele (a de cima) e perguntei se estava tudo bem. Ele disse que sim, que estava se sentindo melhor. Deitou e dormiu num segundo.
  Já passava das quatro da manhã e eu decidi tomar um banho também. Acho que o melhor a fazer nessas horas é relaxar e desestressar. Limpo e confortável, me deitei para dormir também. Senti vibrações estranhas da cama dele – sabe, ele tremia todo. Tentei dormir de qualquer jeito. Assim que fechei os olhos, senti o vômito melecar meu corpo todo.
  Para não vomitar na própria cama, ele virou em direção a minha e… Bem, e eu realmente não quero relembrar isso (de novo).
  É claro que eu não consegui dormir aquela noite. Tomei outro banho com muito cuidado, porque quando você acha que as coisas vão mal é sempre bom lembrar: Murphy não é apenas um cara sacana, ele também tem uma criatividade que olha, só vendo – ou no meu caso, sentindo na pele, roupa, cabelo, cama, etc…

 

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2 comments

  1. Juliana Dias · Julho 4, 2010

    Conseguiu arrancar gargalhadas. Essa do coração costuma dar certo, mas eu conheço uma melhor…

  2. din. · Julho 4, 2010

    céus

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