José Saramago

 

  

  Fomos pegos de surpresa hoje com a morte desse grandessíssimo escritor. É estranho, pra mim, ele ainda tinha um bom tempo e ele ainda lançaria (mais) um livro surpreendente e revolucionário. Não, ele foi para o lugar que os ateus vão quando morrem.
  Não vou falar muito sobre ele, porque haverão muitas reportagens e muitas coisas, afinal o cara ganhou o nobel, não é pra qualquer um. Como da vez que morreu Lévi-Strauss, vou falar rapidamente o que ele deixou para mim (sim, eu – Dos Sonhos).
  Ele não era meu escritor preferido e por um motivo óbvio, logo de cara: Saramago era um homem de muitas palavras. Na ficção dele, isso me incomodava, a narração densa e se arrastando, mas era o jeito dele. Li três livros, dos quais um eu recomendo e muito. Mas falar muito também pode ser excelente – ele escreveu sobre fatos atuais, dando sua visão e destacando o que achava importante no cenário mundial, alertando as pessoas – porque tinha voz.
  Era Chavista, sim, mas não discutamos política. Veja aí um pequeno detalhe do que eu dizia: “Eduardo Galeano” (por José Saramago) (acho até irônico falar sobre alguém que elogiou meu autor preferido). Percebe o que quis dizer? Tem outro texto excelente e mais recente (e inúmeros outros que eu não li, é claro) sobre algo que você viu com seus olhos – pela televisão e jornais – “Quantos haitis?”.
  E era isso. Li “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Todos os nomes”. A capacidade de Saramago de reger todo uma realidade que debate com a nossa foi um dos fatores que me levaram a fazer Ciências Sociais. Li também “As Intermitências da Morte” e esse, o melhor que li, é o que me faz crer que as pessoas podem descobrir que viver é algo mais simples do que se pensa…
  Pra fechar, boto aqui o último trechinho postado hoje por sei lá quem atualiza o blog do Saramago:

Pensar, pensar

  Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

 

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5 comments

  1. Malu Mota · Junho 18, 2010

    “As Intermitências da Morte” é, de sobejo, o meu livro favorito deste autor também. Engraçado como este livro é um dos mais “breves” e simples que ele escreveu… talvez seja por isso que tenha agradado-lhe (segundo pude entender de seu gosto, Señor Dos Sonhos). Para mim, as frases mais emblemáticas desta obra são sempre: “No dia seguinte ninguém morreu” (1ª frase do livro) e “De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas”. Acho inclusive que esta última seria um bom obituário deste velho escritor que só aceitaria uma prova da existência de Deus se Ele aparecesse para tomar café com o papa. Quem estará tomando café com Saramago agora?

    • Dos Sonhos · Junho 18, 2010

      Seria um ótimo obituário. Li há pouco uma frase do Eduardo Galeano sobre o acontecido: “Neste mundo há finais que também são começos, mortes que são nascimentos. E é disso que se trata. Ele foi embora, mas ficou entre nós”. Gostei.

      Sobre as intermitências da morte, só posso dizer que a grande coisa não é por ser breve, mas sim porque é lindo. Ensaio sobre a cegueira é pesado, Saramago disse que foi uma tortura escrever. Todos os nomes tem sua beleza contraposta com as trevas (onde nos perdemos). As intermitências da Morte é surpreendente e mostra a dificuldade das pessoas de lidar com as coisas, até com coisas desejadas. Não só isso, eu vi também que o José não era só um homem cheio de palavras, ele tinha coração também (e é por isso que o chamam de Saramago!).

  2. Pingback: Tweets that mention José Saramago | Doce Declínio -- Topsy.com
  3. maracuja · Junho 19, 2010

    aiii quero muito ler esse.. tem aqui ainda???

    • Dos Sonhos · Junho 19, 2010

      Haha, a Priscila roubou! Seqüestra Caio e pede “As intermitências da Morte” de volta como resgate.

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