Rio, 28 de maio de 2017

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Eu tenho que escrever uma matéria. Já pedi um prazo maior e não tem mais como enrolar. Já tenho as entrevista e já tenho tudo na cabeça. Só falta cabeça para escrever. Ela dói tanto sempre que eu tento. Aliás, tudo anda doendo muito: cabeça, coluna, estômago, olhos. Eu me pergunto quem mais no mundo consegue sentir tantas coisas ao mesmo tempo. Parece que finalmente eu entendia o peso dos vinte anos, ou talvez eu fosse só uma fresca mesmo.

Mas será que eu sou só fresca, mesmo? Eu sou tão nova e faço tantas coisas ao mesmo tempo. É faculdade, estágio, cursos de idiomas, aula de música, tratamento para a coluna. Caramba! Eu só tenho vinte anos. Eu só tenho vinte anos e tenho que escrever sobre um assassinato bizarro, que já aconteceu há um mês e que até agora não teve resolução. E como isso já virou uma matéria especial, tem que ser algo profundo, bem escrito, bem apurado, que faça as pessoas refletirem… A voz do editor gritando não adiantava muito…

Eu entrei numa casa que não era a minha, apesar de eu conhecer aquele lugar muito bem. Ia lá, pelo menos, uma vez por mês para beber e conversar sobre o mundo. Quase todos os meus amigos iam. Eu fui até o segundo andar pela primeira vez. Abri uma das portas e de repente notei que tinha uma coisa nas mãos. Era uma faca de um formato estranho, daquelas que parecem capazes de matar uma pessoa. De repente entendi o que eu tinha ido fazer naquele lugar. Era isso mesmo. Não ia resolver os meus problemas, mas ia aliviar boa parte do meu estresse e dos gritos na minha cabeça. Levantei o cobertor, que cobria o cara até a cabeça. Enfiei a faca no peito dele de uma vez só.

Todo aquele sangue na minha cara, me fez acordar. Tinha dormido com a cabeça no teclado do computador por quase duas horas. Acho que a marca das teclas devia estar na minha testa naquele momento. De repente, mais gritos diziam que eu tinha que entregar aquela matéria até as sete da noite. Mentalmente eu pensava “cara, eu acabei de te matar, porque você continua gritando!?”. Entendi que não adiantava enfiar uma faca no meu editor e que a errada era eu por adiar tanto uma coisa tão babaca. Então, eu escrevi muito bem uma matéria profunda e que ia fazer as pessoas refletirem, em mais ou menos uma hora e meia.

O cara gostou, mas não me elogiou, provavelmente por eu ter demorado tanto tempo. Pensando bem ele nunca tinha me elogiado, mas isso não vem ao caso. Peguei minha bolsa e fui para a minha casa dessa vez. Meu marido me esperava dormindo no sofá e o Eduardo tava fazendo alguma coisa na cozinha.

Ele notou que eu cheguei e veio correndo. Abraçou minhas pernas quase chorando e disse “mamãe, eu sei que você tá cansada, mas não briga comigo. Eu já estou limpando tudo”. Tive um mau pressentimento quanto ao “limpando tudo”. Abracei o garoto, acordei meu marido com um beijo no rosto e fui ver o que tinha acontecido. Leite e chocolate espalhados no chão e nas paredes. Parece que o Dudu tinha herdado as habilidades do pai com o liquidificador. Eu ri por dentro e me lembrei de coisas que pareciam ter acontecido há muito tempo.

Mandei o garoto ir brincar e falei para o cara do sofá continuar dormindo já que ele não tinha acordado antes com o liquidificador. Limpei tudo sentindo as dores habituais nas costas e fiz chocolate de verdade para nós três. Tomei banho, resolvi umas coisas pelo telefone, verifiquei meus e-mails, arrumei as coisas para o dia seguinte e, antes de dormi, senti uma saudade incrível de quando eu só tinha vinte anos. Eu nem me lembrava mais de quando tinha sido isso.

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4 comments

  1. maracuja · Junho 12, 2010

    nossa meus olhos q tem se enchido com facilidade ultimamente se encheram de imaginar vcs casado e o dudu, real real real demais… previsão?? medo!

    SIM SIM… um careca pançudinho no sofá…

  2. Juliana Dias · Junho 15, 2010

    Nem vem dona Ingrid…
    Vc já tem um careca pançudinho no sofá… (oops)
    hahaha

  3. evandro · Junho 15, 2010

    Pensei que fosse algo ficcional, mas o comentário da Maracujá (?!) elimina resquícios de dúvida. Muito bom, gostei.
    A foto da lâmpada é sua?
    Beijos.

  4. Ju · Junho 15, 2010

    Evandro! Bom ver o senhor por aqui!
    A foto da lâmpada é do senhor Dos Sonhos… ele deu a foto para eu me inspirar… =)

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