Dois parágrafos

 

  É quinta-feira a noite agora e uma solidão toma conta de mim. Eu não sou nada poético – nunca passei apertos Bukowskianos, minha barriga é flácida, meus pais dormem num quarto, minha irmã no outro. Detesto autopiedade, mas mal consigo respirar – é mentira. Eu respiro bem. Amanhã eu estarei sorrindo. Amanhã eu farei alguém rir. Já são três da manhã e eu não consigo dormir, só posso pensar em amanhã. Não consigo escrever. Não é possível fazer nada além de planos que nunca vão se tornar realidade. Eu estou preso num monte de correntes – as atividades extra-currículares que meus pais me pagam. O cursinho e a faculdade que eu curso. A faculdade é pública, mas não deixa de ser uma atividade. Essas coisas me prendem e é como se eu não conseguisse respirar. Agora, a essa hora já acho tudo uma merda. Não tenho vontade de fazer coisas estúpidas que eu de fato gosto de fazer e faço. Não tenho vontade de beber. E vou me ridicularizando aos pouquinhos. Mas eu detesto autopiedade, quero ser uma pessoa de verdade.
  O oxigênio é pleno a minha volta e eu acho que vou beber uma coca-cola e ler um livro. Normalmente, minha resoluções e soluções pessoais não surgem em dois parágrafos.

 
 

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3 comments

  1. Juliana Dias · Maio 10, 2010

    Creio que sei bem como são essas coisas.

  2. Vörös · Maio 12, 2010

    Que agonia chata essa… que texto-alívio. Mui bien, tico!

  3. Fernanda Hiraga · Maio 31, 2010

    é disso que eu gosto na literatura: o desabafo é teu, mas quase que podia ser meu também.

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