Num lugar escuro

 

  Depois de uns quinze minutos, a presa dormia em sua cama. Na verdade, ele devia estar acordado, virava de um lado pro outro. Eu já tinha visto aquilo antes. Tem algumas coisas que você nunca esquece.
  De repente ele levantou. Ficou sentado na beira da cama bagunçando os cabelos cacheados e olhando para o chão.
  Podia ser agora, eu pensei.
  A campainha toca. E toca, e toca repetidamente. Alguém realmente chato toca campainha e toca e toca de novo e bate com força na porta. A presa, isto é, um rapaz de vinte e poucos, vai até a porta. Vai se arrastando.
  A porta se abre fazendo aquele barulho chato. “CARALHO VAI CHOVER DE NOVO” e logo em seguida a presa aparece puxando o corpo dum cara grandão, aparentemente bêbado demais. Deixou o cara no chão. Ele disse alguma coisa.
  A presa ficou em silêncio, depois foi ao banheiro. Voltou com um balde na mão e derramou um pouco d’água na cara do sujeito. O grandão levantou meio confuso “PÁRA, PORRA!”. Ali na sala daquele apartamento pequeno e sujo, os dois ficaram: a presa de pé e o bêbado deitado, os dois de olhos abertos.
– Então, Gabriel, pelo visto, as coisas não foram bem com a Paula…
– Na verdade, não foi ruim. – respondeu ele do chão.
– Ela me parecia ser bem legal.
  O cara grande e bêbado, Gabriel, tentou levantar sozinho, não conseguiu. A presa o ajudou e eles foram andando lentamente em direção ao quarto.
– Foi legal, foi legal, a gente tava ficando legal, lá naquela boate legal… Mas porra, PORRA! Ela não me deixava encostar nela, a gente se beijou sem se encostar porra.
– Entra no banheiro, você não parece bem.
– Eu to legal, legal.
  E eles entraram no banheiro, o Gabriel sentou dentro do box, minha presa ficou lá tacando água na cabeça dele.
– PORRA que água gelada.
– Continua contando.
– PORRA tá frio porra. Porra Bernardo. – a presa não respondeu. – Tá, tá. Aí que a gente ficou e ela tirava a minha mão da coxa e dos peitos, da bunda. Eu fiquei puto, comecei a virar todas, TODAS. – de repente, ele riu – Cara, eu to muito bêbado.
  O barulho da água parou. O Gabriel já devia estar melhor. E continuou falando:
– Aí teve uma hora que eu enchi o saco daquela merda e taquei um copo de cerveja na cara daquela puta falsa e me expulsaram de lá.
  Minha presa, o Bernardo, respondeu depois de pensar um pouco:
– É, ela parecia mesmo ser escrota.
  Os dois ficaram um pouco em silêncio. Depois o Gabriel perguntou:
– Você não tinha dito que ela parecia legal? Você tá se contradiz… contradiz-en-do.
– E eu não posso? Eu tenho dois braços, duas pernas, meu cérebro também tem dois hemisférios, eu tenho duas opiniões.
– Faz sentido.
  O Bernardo tava enxugando o amigo bêbado, tava enxugando com raiva, com força.
– Calma PORRA.
– Cara, sabe aquela vez que eu peguei você comendo a Renatinha lá no banheiro do colégio? – sem resposta – eu nunca esqueci. Nunca esqueci. Tem algumas coisas que você nunca esquece. E cara isso me deixa triste. Eu faço discursos, eu faço os discursos que meu chefe apresenta para o resto da companhia. Eu não tenho uma faculdade e eu faço os discursos e são coisas idiotas que todo mundo acha genial. Nos discursos eu falo sobre dormir tranqüilo enquanto os consumidores compram a nossa marca. É uma tremenda idiotice isso. É uma tremenda idiotice.
  O Gabriel ficou em silêncio.
– Sabe, eu ganho bem, eu junto dinheiro. Você sabe, eu preciso pagar o meu apartamento, o da minha mãe, eu preciso pagar os remédios e os médicos dela e eu sou virgem. Sabe, eu nunca esqueci quando vi você com a Renatinha.
  E um silêncio estranho se formou ali entre os dois.
– Por que você está me dizendo isso?
– Porque você não vai se lembrar disso amanhã, eu só precisava dizer isso a alguém.
  E então, eu saio das trevas daquele quarto, digo que é um ritual e que só assim as próximas chuvas não irão matar todo mundo. Mas eu sei que é mentira. Eu pego minha pistola e descarrego um pente inteiro na presa, são sete tiros. Mas ele sabe que é mentira.
  O amigo bêbado apaga, ali mesmo, no box. Minha presa vai pegar uma cerveja pra ver se consegue dormir e eu fico esperando. Sempre aqui, num lugar escuro.

 

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