Quirguistão

 

  Naquele dia o Luís estava com sua camisa branca, calça jeans, o all star azul e branco. Pode parecer engraçado, é, eu sei que não é, mas pode: ele gostava do céu – ainda mais de céu azul com nuvens brancas: adorava – e gostava do mar – mas só do mar azul, os verdes, amarelados ou amarronzados ou sei lá, esse não. Sabe, essas coisas puras, só azul e branco.
  Ele teve até uma namorada, ele fazia a barba de vez em quando e lia bastante, leu Shakespeare, Descartes, Caio Fernando de Abreu, Manoel de Barros… E Fausto, ele gostava de Fausto, sei lá, ele lia bastante mesmo. Lia até jornal, era um rapaz, assim, bom de conversa. Putz, não, ele não se parecia nenhum pouco com aqueles garotos americanos, não, não mesmo.
  É, sim, ele morava em Brasília sim. Aliás, pode parecer estranho mas: existe juventude em Brasília. Vida. Do mesmo jeito que existe rico na áfrica, do mesmo jeito que as pessoas trabalham lá e não vivem só passando fome e calor o dia inteiro. Tem até gente branca lá. Pois é. Ele vivia em Brasília mesmo.
  Naquele dia… Sabe, eu não lembro, mas vocês tem que entender: o Luís gostava de escrever. Ele era afiado, era mortal, era letal, as suas letras eram munição na cabeça e tiro no papel: era um rapaz extremamente crítico. Não, ele tinha amigos sim, eu era amigo dele.
  Aliás, ele gostava de cultura. Acho que aquilo tava magoando ele. O quê? Ah, aquilo, sabe, quero dizer, isso, isso tudo, eu vocês nós. Essa bobeira. Ele queria que as pessoas tivessem cultura, ele queria juntar a beleza do individuo com a força “imbecil” da massa. É, palavras dele, isso: pode pôr entre aspas.
  Não sei como arranjou as armas, não sei quantos políticos matou, só sei que enquanto matava todos aqueles “filhos da puta” – não, não, essa expressão é minha – quando matava todos eles, falou que o Brasil era muito maior que o Quirguistão e ele era muito menor que novecentas pessoas”.
  Que pergunta estranha… Acho que sim, naquele dia o céu estava azul, cheio de nuvens brancas… Pensando bem: não, não acho que ele morreu feliz. Tinha uma mancha vermelha. Uma não, tinha várias corações perfurados na cabeça do Luís.
  Quê? Se ele era louco? Louco foi o segurança que atirou nele. Louco é você pra fazer essa pegunta. Louco sou eu de responder.

7/04/10
 
  

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