Sonhos de Criança

 
1.

  Eu não esperava nada daquele quarto. Quando você é médico e tem uma certa experiência, sabe que algumas pessoas podem abrir seus olhos para coisas que não se percebe fora de um hospital.
  Naquele dia, o senhor, um homem bem simples com uma família sofisticada, recebeu visitas pela primeira vez desde a internação. Há visitas e visitas, mas aquela não seria uma muito alegre – as coisas não iam bem mesmo para o paciente e ele estava pálido e com um hálito péssimo por causa da doença.
  Crianças entraram correndo com balões coloridos e desenhos nas mãos. O filho dele já tinha mais de trinta anos – trazia consigo a mulher e os três filhos. O avô ria e brincava com as crianças. Ria da própria brancura e dizia que o mau hálito era pra espantar mais alguma doença que quisesse se aproximar dele.
  Depois os garotos saíram com a mãe e pai e filho ficaram a sós. Quer dizer, eu estava lá, trocando o soro e ajeitando outros detalhes – mas eles não ligaram pra mim. O homem mostrou o desenho para seu pai. Era os três garotinhos – desenho de criança – e o avô e um coração.
  Lembro das palavras:
– Esse não é o meu coração – o homem ficou claramente confuso – Esse aqui é – e o velho pegou a mão de seu filho e colocou no próprio peito.
– Pai…
  A principio ele ficou meio constrangido, ele não parecia ser muito próximo ao pai… Mas logo depois uma lágrima correu pelo seu rosto.
– Sinta, só sinta isso meu filho.
  E nesse instante eu saí do quarto, para não atrapalhar o momento dos dois. Na verdade, algo me tocou naquela hora. Mas tem coisas que mil palavras não são capazes de descrever. Basta você sentir.

2.

  Uma vez, eu devia ter uns 11 anos, eu estava sentado com uma revista na mão. Era uma dessas de gente grande, dessas que são de direita ou esquerda e essas coisas que ninguém entende direito – quer dizer… Eu nunca entendi direito. Nela, tinha uma foto – nada demais, pequena até – da Estátua da Liberdade. E eu fiquei parado, vidrado naquela foto. Meu pai me viu – coçou o queixo, a barba por fazer – e vidrou em mim.
  Quem perguntou “que foi?’ fui eu, uma criança ainda. “Nada, só tava curioso, que é que tem de tão interessante aí nessa revista?”. Eu olhei para a foto “É a Estátua da Liberdade. Ela é gigante. É nos Estados Unidos”.
– Ela não parece tão grande assim pra mim.
– Mas ela é!Ela tem 47 metros! (Sim, eu era um desses garotinhos que sabia números)
  Ele olhou pra mim, pegou a revista e rasgou a foto. Depois me deu e falou assim: “Ela está na palma das suas mãos”.

3.

  Nossa família era grande, mas tudo garoto ainda. Era primo que não acabava mais. Ah e meu pai, que contava como se fosse mais um primo – só que com um pouquinho (um pouquinho só) mais de autoridade.
  Ótimo: dois times de futebol. O campinho era a terra de lá da frente da casa da nossa avó. Os gols era dois tijolos de cada lado – golzinho.
  E quando a gente ia começar, veio a tia Margareth, mãe do Paulinho e do Pedrinho: todo mundo tirando o tênis e a meia que a gente não vai passar a páscoa lavando tênis e meia de ninguém aqui.
  Então, rapidinho, todo mundo foi e tirou o tênis, as meias, colocou tudo um do lado do lado da arvorezinha que tinha do lado do portão da casa da nossa avó.
  Pronto, vamos começar! E foi bola rolando! Tinha uns pernas de pau, mas eu jogava bem. Aliás, eu e meu pai num time só era fatal. E naquela de subir areia e bico na bola sobrou para o carro do Seu Agenor.
  O pai do Lucas veio correndo quando ouviu, sabia que tinham acertado o carro dele. Todo mundo, inclusive meu pai, ficou meio quieto quando ele apareceu. Ele olhou para o amassado na porta (nada demais, pensando bem) e nem pensou duas vezes: pegou a bola e furou com uma faca da cozinha.
  As crianças é claro que reclamaram, mas ninguém podia fazer nada. Todo mundo ficou discutindo entre si, de quem era a culpa… Ou quem tinha chutado lá para os lados do carro, nada disso dava em lugar nenhum.
  Quando eu e meus primos já íamos entrando pelo portão, meu pai – o mais criança de nós todos – chamou todo mundo: “Ei, ninguém quer jogar não?”
  Nossos tênis estavam todos no mesmo lugar. Nossas meias é que viraram uma bola.
  E nossas pernas e nossa poeira e nosso joelho sangrando e nosso pé sujo é que viraram os do atacante da seleção brasileira em final de copa do mundo pronto para fazer o gol da vitória, cara a cara com o goleiro.
  Eu percebi que é tão simples, tão simples: ser campeão do mundo é mole.

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3 comments

  1. Ana mel · Abril 3, 2010

    Lindo, lindo.
    Sobre sonhos, pais e filhos. Tudo lindo, puro e simples.
    Me inspira!

  2. maracuja · Abril 5, 2010

    Din diz:
    auhuhuaha
    lembra quando mamãe furo nosso bolão?
    Lu B. Crespo diz:
    Hahah… não.
    Din diz:
    seu insensivel
    a gente compro no campo de são bento
    Lu B. Crespo diz:
    Eu era pequeno.
    Din diz:
    e fico brigando
    ela naum penso duas vezes
    pego um garfo e furo
    Lu B. Crespo diz:
    ahahahah que legal, eu não lembrava dessa hahaha

    • Dos Sonhos · Abril 5, 2010

      Din [maracujá] diz:
      hahahah isso [parte 3.] é história real??
      tem cara
      Lu B. Crespo [Dos Sonhos] diz:
      Não é.
      Embora dois personagens sejam. [pai e filho]

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