Dia 18, às 15:44, Ed. Renoir, 231, apto. 1201

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Eu estava com um cigarro na boca, jogado no sofá. O nariz fungando. Sol e calor, era de tarde. Sem camisa, deslizei para o chão sentindo meu corpo saindo do couro do sofá e indo contra o veludo do carpete. Sabe, uma dessas coisas que a gente faz quando ninguém tá vendo. Fiquei me olhando no espelho enquanto deitava no chão. O cigarro quase escorregou da minha boca.

No espelho: eu estava mesmo magrelo, tanto que minhas costelas saltavam. Vinte cinco anos e uma vida razoável. Nariz fungando é um saco. Agora deitado, meus olhos ficaram vidrados na luminária. Uma bem velha e grande, quase não cabia no apartamento. Comecei a pensar no sonho que eu tinha tido mais cedo.

Renata e eu, tudo começava com nós dois num carro, aliás: no carro. Depois…

Toc-toc, alguém bateu na porta, acabou com minha reflexão. Levantei. Funguei o nariz. E fui até lá. Pelo olho mágico: um homem conhecido de terno. Era ele, veio pegar mais pra revender. Eu não tinha mais. Pensei em achar meu celular e avisar ao meu chefe que eu estava em perigo. A porta abriu de repente e o braço do homem me pegou pelo pescoço. O cigarro caiu da minha boca, ele me segurou num mata-leão.

-Boa noite, Edgar.

As palavras foram ditas por ele e eu não podia nem sequer responder. Eu não conseguia respirar. Não. Não era o momento de morrer ainda. Não agora. Lutei, mas fui perdendo as forças. Muco escorreu do meu nariz no braço dele. Sentindo algo estranhou, ele afrouxou e eu consegui me soltar.

Dei dois passos e ele num pulo me jogou contra a televisão. A tv se espatifou no chão, eu caí com o diafragma contra a mesinha de madeira. E antes que pude pensar em sentir falta de ar, a grande mão branca do bruta montes já estava no meu pescoço. Acho que agora era de morrer, talvez a gente não possa evitar.

Mas antes da minha visão perder o foco completamente, eu nem enxergava a careca reluzente do homem. Eu enxergava a minha loucura, no estilo Brás Cubas. Era só o mesmo sonho de pouco tempo atás. O carro indo e indo e batendo. Tanto eu como a Renata, nós não parecíamos bem, vivos apenas.

E então, o carro começou a pegar fogo. Não, não, não era o carro. Minha visão sumiu e eu só consegui sentir o inferno vindo pegar a mim e ao filho da puta de careca reluzente.
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