Ex-Tia de Artes

 

  Acho que nunca falei de mim aqui, embora todos os escritos anteriores sejam reais, com algo de invenção, meu irmão reclama e tal, mas enfim. Acontece que tenho 23 anos e sou ex-professora de artes. É que na escola onde eu dava aula resolveram trocar as artes plásticas pelo teatro. Eu já previa, semana passada passei lá e a minha sala já não existia mais-puseram uma parede no meio.
  Eu nunca fui uma defensora da ordem no colégio, sempre tive que brigar muito pra fazer as coisas do meu jeito. Ou fazer na marra mesmo. Acho que meu dia preferido, foi quando fizemos um bloco de carnaval, o Bloco do ‘22’. Passamos um bom tempo arquitetando tudo. Um boneco de Olinda inteiramente construído pelos alunos, com roupa costurada a mão e tudo, estandarte, música própria- que foi mais uma mistura de trechos de músicas que eles iam cantando livremente enquanto eu e outros alunos montávamos no quadro. Na data escolhida, eles pegaram panela e utensilios da cantina e mais outras coisas, coisa que aluno sabe fazer é barulho. Quanto a isso não tivemos problema. Foi briga pra entrar no boneco que acabou que ficou cada um, um pouco, que teve tanta confusão na escolha do nome que acabou sem nome mesmo. Começou tímido, mas com uma boa puxadora, logo muitos já estavam cantando várias marchinhas. Depois de uma volta na escola e acabar com todas as aulas do andar térreo-pelo menos- o Bloco terminou meio a contra-gosto de todos, comigo levando esporro da professora de matemática na frente de toda a turma do Bloco, a sétima série. Achei o máximo.
  E tantas outras histórias, os videos feitos com celular, a homenagem a Hélio Oiticica, defumar a escola inteira numa aula de fotografia com incensos, modelos vivos inquietos, as performances, as pinturas gigantes do lado de fora e a corrida por causa da chuva…
  Acho que nunca quis muito preparar meus alunos pra escola. Aqueles cartazes didáticos, carteiras arrumadas, silêncio. Que chatice. Pensava o tempo todo no mundo imenso que eles ainda não tinham visto. Foi pensando assim que levei minha primeira turma de terceiro ano pra Escola de Belas Artes, EBA pros íntimos. Aquela coisa gigantesca, uma cidade universitária. Os ateliês… modelo vivo pelado (Ô), saíram de lá com cara de futuro, e ainda planejaram todas as suas aulas de artes dali em diante, queriam fazer tudo, adoraram tudo, eles que eram até meio apáticos por causa do vestibular, ó, terrível.
  A gente conversou muito também. Aulas inteiras sobre sexo, aborto e vida. Nem sempre foi eu quem ensinei, admito e admiro isso neles. Quando não dava pra dar aula fazia respiração de Yoga ou colocava Villa Lobos, e eles pintavam tudo que sentiam ao escolher as cores. As bachianas numero 2 e vinham os marrons, os verdes e os vermelhos…
  Levei café, cacau em pó, tangerina, meia do meu irmão com queijo ralado dentro, orégano, wasabi. Aprendi que pra criar é preciso ter todos os sentidos aguçados, só não esperava que misturassem tudo e provassem, e nem que resolvessem pintar com detergente logo depois.
  E quando o olhar ia além eu delirava. Quero que as pessoas vivam em escala aumentada, por isso sempre briguei por murais e mesmo sem nunca conseguir, nunca deixei de permitir isso aos meus alunos, criar em escala aumentada. Acho que o mais díficil daqui pra frente vai ser deixar de ver essas cem pessoas crescendo e ver seu caráter sendo moldado em cada conversa e a cada dia. É verdade que já via esse trabalho como temporário. Afinal que tipo de insano ou mágico sobrevive ganhando sete reais a hora
  Confesso que foi difícil terminar de escrever, os olhos ficaram muito embaçados, o nariz muito entupido e os pingos borraram todo o caderno, isso porque nem falei dos outros professores loucos como eu, acho que é pesado demais levar tudo, pra uma tia só. Além do mais, quem sabe agora, o futuro é grande e espaçoso…Sei lá de repente abrir um curso livre de artes? É…
  Acho que viciei.

 

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5 comments

  1. Dos Sonhos · Fevereiro 2, 2010

    Esse é o seu melhor texto de longe.
    Eu não escrevo textos que de fato aconteceram, porque não gosto. A única vez que fiz algo parecido, eu fiquei bastante contente com o resultado, é um dos meus melhores textos – fica sempre bastante verdadeiro assim.
    Mas é triste. Você não acha que seus alunos de quinta e sexta e sétima vão reclamar? Você não acha que eles podem crescer e ficar do tamanho que você falava pra eles ficarem e pedir a aula de artes, a tia de artes, de volta?
    Sei lá, parece difícil. Parece impossível, coisa de filme. Mas eu acho que pode acontecer.
    Essas coisas que você fazia, tipo levar minha meia com coisas fedorentas dentro, bloco de carnaval, villa lobos e bethoveen, também não é coisa de qualquer professora não. É coisa rara e difícil entre essas pessoas que existem, essas pessoas chatas e humanas.
    Mas acontece, né? Parece coisa de filme.
    Então, você, desse jeito, assim, só não pode deixar o livro terminar no meio e manter-se professora Querida e excêntrica em tudo que faz na vida! Até naquilo que você tá longe de poder ensinar.
    Acho que é isso.

  2. Dos Sonhos · Fevereiro 2, 2010

    PS: Não liga muito prá diagramação não, isso pode deixar comigo, visito meu blog diariamente e acho um absurdos coisas sem parágrafo ou esses meus TOCS.

    PS²: Que nervoso desse meu comentário não-editado.

  3. Bella · Fevereiro 2, 2010

    Se eu tivesse tido uma professora de artes como você, certamente teria rumado pra esse lado. A minha professora do colégio era chata, arrogante e não deixava ninguém ir muito além do que ela propunha – não dava asas pros alunos como acredito que você fazia.
    Deve ser realmente triste parar de fazer algo assim que você gostava tanto.
    Mais não tenho a dizer, seu irmão já disse tudo.
    Gostei do texto muito.

  4. Juliana Dias · Fevereiro 3, 2010

    Sabe ex-tia…
    Eu nunca tive aula de artes. Nos colégios em que eu estudei eram todos preocupados demais com essas besteiras de física, matemática e essas coisas que ninguém usa para nada na vida… (ok, exagero)
    Eu me lembro de ver meus primos menores cheios de coisas coloridas e legais que faziam nas aulas de artes que tinham… depois de um tempo eles perceberam que isso era legal… mas eu já era grande demais para “essas bobeiras”. ¬¬

    Teria sido legal ter uma ex-tia assim e aulas livres de arte…

    Vai abrir um curso? =)

  5. Arquitetisa · Fevereiro 3, 2010

    Adorei seu texto Din…
    É incrível como descobrimos pessoas incríveis à medida em que nos permitimos desvencilhar de velhas e queridas amizades, para testar nossa capacidade de ainda nos surpreender com até então “desconhecidos”.
    Minha mãe é professora de português e lá onde ela trabalha, conheci poucos com a mesma paixão com que ela ministra suas aulas. Mas acho que o que impulsiona realmente o bom professor, ou o bom profissional, é essa vontade de mostrar tudo o que você vê e acredita ser interesante, através de outros olhinhos, fazendo-os crescer e realmente aprender, não empurrando livros insossos, que os fazem até perder o interesse pelo aprendizado.
    Parabéns por sua capacidade de ser diferente e ao mesmo tempo competente!!!

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