Espaço

 

  J.P. morava com seu pai, sua mãe e mais três irmãos. A casa tinha cinco cômodos: banheiro, cozinha, sala, o quarto dos filhos e o dos pais. Eram dois beliches e ele, J.P., o segundo mais novo dos irmãos, ele dormia numa das camas de cima. O teto era baixo, então ele não podia se revirar muito, se não quisesse esbarrar no concreto. Mas isso nem chegava perto da fila no banheiro, a comida superdividida.
  Um dia, o pai foi embora. Ninguém disse nada verbalmente, mas todos se comunicaram com os olhos. A casa continuava a mesma, mas tudo mais cochichado, mais triste. A mãe começou a ser mais severa: Parem do cochichar e vão estudar! Quem não quiser estudar, vá trabalhar! Mas deixem de gracinha.
  As coisas não iam bem, quando o mais velho decidiu fugir de casa. Todos os irmãos ficaram sabendo, o mais criancinha era muito apegado ao que fugiria e acabou indo com ele. A mãe abraçou os dois filhos com lágrimas nos olhos: não vão embora meus filhos, eu já sofro demais sozinha. Não havia mais filas, nem teto, nem pouca comida.
  Na escola, os irmãos restantes ficaram mais próximos, mas eram sempre recebidos com maus olhares pelos outros alunos: todos que eles tinham iam se esvaindo. Foram parados pouco tempo depois da fuga dos outros irmãos, por um brutamontes: o irmão mais velho de vocês me devia dinheiro. J.P. escapou e seu irmão teve que pagar as contas do mais velho com violência – e acabou por morrer espancado.
  Ao saber disso a mãe falou para J.P. que ele era um rapaz grande e que podia se cuidar sozinho. Se suicidou no dia seguinte. A casa vazia era um cubículo para o garoto de quinze anos. Ele foi levado para a casa do parente mais próxima, uma tia. Era só ele e a tia. Não havia muita conversa entre os dois. Uns anos passaram e ele passou no vestibular. Só estudava e mais nada. O problema é que acreditava que o mundo não tinha espaço pra ele, por isso não tinha vontade de viver.
  Começou um curso qualquer, Letras. Descobriu outros mundos, fez amigos na faculdade. Era o começo de uma nova vida. Os anos passaram e ele acabou – ainda universitário – dando aulas numa comunidade da cidade. Aulas voluntárias de português pra gente carente. Ele gostava de fazer isso: talvez lembrasse dos irmãos.
  Certo dia, era segunda feira e ele dava aulas quando o mundo começou a desabar. A chuva destruiu a cidade. Destruiu a tudo. E J.P. desanimou. Ficou preso em casa com a Tia. Uma tia que não falava nada. Culpava ele pela morte da mãe. Ele via pela tv a cidade em pedaços. Sorte, nenhum amigo próximo morreu. Mas alguns alunos… Alguns alunos dele haviam morrido com o desabamento de encostas.
  Na semana seguinte, ainda não havia aulas. Mas J.P. foi chamado para contar histórias à crianças em abrigos. Quando chegou lá, era muito gente espremida num quartinho. Eles até receberam comida e agasalho, mas as condições eram medíocres. Sentou-se no meio da sala e contou uma história – não só para as crianças, mas para todos que estavam na sala: velhos e adultos, voluntários e abrigados.
  Uma criança gostou e pediu que ele contasse outra história. J.P. conhecia muitas histórias – leu muito na faculdade – e tinha boas histórias de amigos que fez. Contou outra história. Um velho adorou e pediu outra. Ele contou outra história. E assim foi, até anoitecer. Um dos abrigados pediu – moço, dorme aqui com a gente, você é muito divertido. Então, João Paulo abriu os braços o máximo que podia: ele tinha tanto espaço que seus braços deram a volta ao mundo num imenso abraço.

 

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