Dia Especial

 

  É até engraçado, porque hoje é um dia especial. É o post #100 desse blog! Haha, criado em 30 de Setembro, o Declínio já teve 8 mil visitas! Muito surpreendente e um salto absurdo pra quando o site era do blogspot. E eu sempre recebo comentários apoiando a minha escrita e a dos outros autores do blog e isso é muito bom e eu fico muito feliz com isso, obrigado =D.
  Bem, pensei no que eu podia fazer pra criar um 100º post interessante, mas nem tive idéias: quase escrevi um novo texto. O que surgiu foi postar meu primeiro conto que é grande e denso e nem parece eu escrevendo, de tanto que eu mudei em quase 3 anos de escrita. Engraçado, mas o conto se chama Dia Especial, como hoje é. Então, boa leitura. ^^
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Dia Especial

  O velho estava ali, sob o sol de fim de tarde. Sentado sobre uma geladeira completamente acabada deitada no chão. Seus olhos eram de um cinza pálido bastante exótico, em suas retinas imagens de guerras travadas há tempos repetiam-se infinitamente. Havia poeira no ar, o chão era de terra e ventava mais que o de costume. O lugar ganhava um tom alaranjado por causa do sol, era mais bonito em imagem do que em sentimento, isso estava se tornando muito comum.
  Sem um motivo particular, naquele dia em especial, ele havia se vestido muito bem, segundo seu próprio senso de raciocínio. Não se sentia bem arrumado assim a mais tempo do que podia lembrar. Talvez a última vez que estivera tão elegante tivesse sido em alguma premiação sem sentido ou porquê, em seus últimos dias como militar.
  Sua calça era um jeans velho rasgado na lateral, provavelmente por alguma forma metálica pontiaguda da máquina de lavar quebrada onde a encontrou, lá mesmo no ferro velho onde ele estava naquele momento.
  O paletó que usava, antes estava jogado ao chão, junto a alguns restos de comida de um outro mendigo que morrera de fome dias atrás. Por baixo do paletó não vestia nada, seu peito nu era o melhor lugar para demonstrar o orgulho que sentia de seu corpo velho e mutilado. Todas as cicatrizes que havia em seu corpo eram lembranças de alguma guerra, derrota ou vitória, o que ele considerava arte. A arte natural criada com o tempo, com a realidade, coisa que ele mesmo dava muito valor, pois tinha vivido o suficiente para saber que o importante da vida é viver.
  Cada forma metálica refletia um pouco do majestoso sol vespertino, que aos poucos descia pelo horizonte e que em breve deixaria a noite, o escuro e o frio tomarem conta do dia. O velho apoiava o corpo, mais precisamente a coluna, sobre uma grade metálica semi-enferrujada cujas arestas, pelo menos parte delas, faziam o que trazia deleite aos olhos do velho: refletiam o deus da guerra, o sol.   Enchiam-se de energia trazendo calor e vivacidade ao dia, todo dia. Naquele dia em particular, o olhar do velho era um pouco desanimado, nunca triste, mas um pouco desanimado. Olhava pela grade com a cabeça nas nuvens, olhava para o mesmo lugar onde vira alguns garotos mais cedo, passeando com seus cachorros, dois pit bulls. Percebia que a juventude não tem um terço da vontade de lutar que ele tinha naquela idade. Nem lutar, nem aproveitar, muito menos viver.
  Pelos nervos enrugados da mão esquerda era possível observar que ele segurava a grade com força, talvez com um pouco de raiva. Transformou-se num mendigo. Lutou pelo país, ganhou algumas, poucas, condecorações e agora era um mendigo. Não ganhou dinheiro algum ao guerrear por patriotismo, mas ganhou experiência de vida, o que o satisfazia. Ao voltar de seu último combate, há não muitos anos atrás, foi para a casa de seu único filho vivo. Ironicamente seu filho o recebeu de braços abertos, chorou até. Foi uma reunião familiar memorável, uma verdadeira cena de cinema: um filho que nunca havia tido muito tempo com o pai, se reencontrando com ele após anos.
  Morou com o filho por alguns anos. A principio seu filho achava que seu velho tinha algum dinheiro guardado ou que tinha economias juntadas através dos vários anos de guerra. Depois de certo tempo descobriu que era pura ilusão de sua cabeça, e considerou mais uma vez seu velho, seu pai, seu progenitor uma peça descartável. Então certo dia apareceu no cubículo onde o pai dormia e passava a maior parte do tempo, pediu para que este se retirasse de lá, pois não podia mais bancar suas despesas.
  No fundo o velho sabia. Foi a criança dentro de seu filho que fez aquilo. A mãe dele teve dois filhos. Um deles morreu jovem, o velho não lembrava direito como. O outro, que foi quem lhe deu abrigo por certo tempo, cresceu sem ver o pai quase, pois este era de um posto alto no exército e não tinha muito tempo com a família. A mãe morreu de velhice, o velho não lembrava quando. No instante em que seu filho o despejou, o velho sabia que ele estava se vingando da infância pobre e mal-amada que teve por parte de pai. A partir daquela hora o velho não tinha mais ninguém no mundo, mas acreditava que nunca tivera alguém, como soldado aprendeu que não se deve confiar no inimigo e que todos a sua volta são seus inimigos.
  “ATCHIM!”. Cada centímetro do seu corpo doeu naquele espirro, seus pulmões não eram mais os mesmo, os seus ossos estavam erodidos pelo tempo e pelo esforço. Virara mendigo depois de ser despejado, sabia se virar sozinho. Naquele dia mesmo havia arranjando, mais cedo, um “amigo” que passaria ali, no ferro velho, pela hora do pôr-do-sol para entregar-lhe uma quentinha de comida e ele não comia há alguns dias.
  Faltava pouquíssimo para o sol se pôr. Ele largou a grade e seus raios solares refletidos, desceu da geladeira deitada onde estava sentado e mancou para a direção que ele julgava ser a certa. Cada passo era mais uma guerra que ele travava, depois do 70º ano de vida tudo ficara bem mais complicado. Cabelo não tinha sobre a cabeça, e a careca era queimada pelo sol, todo dia. Cuspiu a saliva excessiva que criara na boca só de imaginar o almoço que teria em breve, ao cair da noite. Seguiu mancando, guerra após guerra, até finalmente contornar aquela grade e sair do ferro velho. A sua frente passava uma estrada, que apesar de se encontrar no meio de uma cidade, era numa parte com pouca gente.
  Posicionava-se exatamente onde seus olhos cinzas haviam observado os jovens com pit bulls passarem através das grades do ferro velho e da poeira no ar. Agora o lugar estava vazio, sem nenhuma alma viva além dele. No horizonte o sol se encontrava com o chão e descia, descia, descia… Faltava pouco para ele chegar ao que o velho acreditava ser o inferno. Sabia que o mundo girava em torno do sol, mas acreditava que o inferno e o céu coexistiam com toda aquela explicação que tivera no colégio.
  O sol inicialmente era só uma esfera, só um produto como todos os seres humanos. Mas ele tinha a capacidade de visitar o céu e o inferno todos os dias. Passa o dia no céu, onde é bom e a noite quando seu brilho está por se perder, desce ao inferno para queimar novamente e assim ganhar o privilégio de ascender aos céus horas depois. Às vezes ele não aparecia, mas isso era como um castigo, todos erram, todos são castigados, até o deus da guerra, o sol.
  Um som. Era a buzina dum carro roxo muito parecido com ele: bem velho e caindo aos pedaços. O carro parou ao lado dele. O homem que o velho esperava abriu a janela manualmente e pôs uma mão para fora com um pratinho de alumínio que foi pego rapidamente com as duas mãos pelo velho. Sem esperar agradecimento, sem dizer nada, o homem do carro partiu rapidamente, parecia sentir-se humilhado perto de mendigos ou deficientes, mas os ajudava sempre que podia. Achava que com isso chegaria ao céu, fazendo “boas” ações como essa. O motivo não importava para o velho, pelo menos agora ele tinha o que comer.
  Mancou para trás e sentou-se encostado a grade novamente. Porém dessa vez do lado de fora, sua fome era grande o suficiente para não fazê-lo esperar todo o tempo que levaria tropeçando em suas próprias pernas até a geladeira que escolhera como cama. No horizonte o carro roxo desapareceu no meio da poeira levantada, seguindo a estrada de asfalto. Rapidamente ele abriu a quentinha jogando a tampa amassada no chão, e pegando o conteúdo de dentro com toda à vontade do mundo. Aquele sentimento não era o que acostumara a sentir no exército, pois apesar de todos os sofrimentos da batalha e dos tempos que passava sem poder comer, sabia do básico: Caso saísse vivo, poderia festejar o quanto quisesse… E teria história para contar. Não. Naquele momento sentia fome. Fome de não saber se nos próximos dias poderia repetir uma refeição boa como aquela. Uma coxa de frango bastante grande, mal cabia na palma de sua mão.
  Deu a primeira mordida. Estava deliciosa e muito cheirosa também. Ainda mastigando lentamente o que conseguira pegar com seus dentes frágeis na sua primeira mordida, aguçou os ouvidos e ouviu algo se aproximando… Velozmente. Virou a cabeça e viu: levantando tanta poeira quanto um carro e fazendo um barulho metálico irritante, aqueles dois cachorros que vira mais cedo vinham em disparada na direção dele. O velho achava que eles queriam sua comida, sabia que tinha que lutar por ela. Aquilo seria mais uma guerra para ele, justamente no momento em que o deus da guerra, o sol, desapareceu no horizonte.
  Ele mordeu outro pedaço para que não sobrasse nada de sua comida para os pit bulls, talvez assim eles fossem embora. Mas estava velho demais e não tinha reflexos para lidar com aqueles cães, não tinha velocidade para comer aquele pedaço de frango antes dos seus mais novos inimigos, os cachorros, chegassem. Os sons metálicos que vinham dos cães eram das coleiras que cada um tinha em seu pescoço, ambas eram pretas e tinham uma pequena placa de ouro no centro. Os pit bulls eram quase idênticos, não eram muito grandes, mas eram sim bem fortes e imponentes, como seus donos. Os dois eram brancos, sendo que um deles tinha uma grande mancha marrom no dorso. Eles corriam com maldade nos olhos, agindo por instinto, sem ao menos saber as conseqüências de seus atos. Eram só cachorros.
  Enquanto o velho tentava engolir o pedaço que mordera, seus inimigos chegaram perto. Ele sabia bem que aquela raça de cachorro era a única que avançava sem sequer rosnar, estava preparado para enfrentá-los, pelo menos achava que estava. O pit bull com a mancha marrom avançou sem nem mesmo parar de correr, com muito impulso pulou exatamente na coxa de galinha que o velho segurava em sua mão.O velho girou o braço fazendo com que o cão errasse a mira e por engano cravasse os dentes diretamente no seu antebraço. Aquilo doeu mais que qualquer ferimento já sofrido em suas inúmeras batalhas, pois estava velho… E a dor se estendia pelos filamentos de seu braço chegando até seu cérebro. Antes que pudesse fazer algo em relação ao cachorro com os dentes cravados no seu braço, o outro pit bull o derrubou pressionando as patas contra o seu peito. Talvez houvesse percebido que ele estava sem equilíbrio algum apesar de estar sentado.
  A queda fez suas costas estalarem, mas sequer percebeu a dor. Tudo o que lhe passava pela cabeça agora era a dor do cão que o mordia e a vontade de comer aquele pedaço de frango que segurava na mão. Já havia engolido o que tinha na boca, estava preparado para mais. Fez uma manobra com o braço, jogando-o para frente de modo que o cachorro soltasse e ele pudesse dar mais uma mordida no frango. Foi bem sucedido em ambos objetivos. Mesmo caído no chão e com o seu braço derramando bastante sangue, havia posto o frango na boca. O cachorro havia caído de costas contra as pernas do velho. O cão branco mordeu a canela de sua perna, aquilo também doeu bastante… Mas naquele exato momento todos os seus sentidos estavam voltados ao melhor gosto que seu paladar já sentira em toda a sua vida. Apesar de já ter saboreado várias coxas de frango nenhuma se comparava àquela, talvez não fosse de primeira classe, mas toda aquela luta dava ao frango o sabor perfeito: vida.
  Com o canto do olho enxergou no horizonte os dois rapazes donos dos cachorros correndo, a juventude sem esperança. Um pouco à frente deles vinha um homem fardado segurando algo, não pode ver o que era, pois sua vista estava um pouco turva. Nem mesmo olhava mais para os cães, e sentiu que ambos o morderam novamente, mas sabia que ele continuaria vivo apesar dos danos de cada mordida. Ele engoliu o ultimo pedaço do frango, estava delicioso.
  Então um pouco do peso de seu corpo diminuiu, um dos cachorros o havia soltado. Abriu os olhos. O outro cão estava cara-a-cara fitando o osso que ainda restara do frango em sua boca, o pit bull estava a ponto de mordê-lo. Mas isso nunca aconteceu. Ouviu-se um disparo e quando o velho notou não sentia nada no seu corpo, estava leve como uma pluma. A única coisa que permanecia era sua respiração. E sua visão embaçada, agora quase sem cor. Viu a carcaça do cachorro em sua frente, completamente sujo de sangue. Provavelmente seu rosto também estava, pois a bala havia atravessado a cabeça do pit bull (não sabia dizer qual dos dois era aquele) e atingido o seu peito.
  Daquela dor ele entendia, já havia sido baleado inúmeras vezes, porém desta vez fora especial, imagens turvas passaram diante de seus olhos… Talvez fossem as imagens de sua vida, mas estava turvo demais para se entender algo daquela visão. O velho viveu bastante, talvez estivesse satisfeito, talvez não. Não podia mais respirar, não conseguia mais prender a respiração… Então a morte era assim. A última coisa que passou por sua cabeça foi a questão: “Será que encontrarei o sol lá embaixo ou lá em cima?”. Pela última vez em seus mais de 70 anos de vida ele fechou os olhos… Dessa vez para sempre.
  O homem de farda era um policial que logo após o disparo pôs as mãos sobre a cabeça, era a primeira vez que matara alguém. Ele estava profundamente arrependido de atirar, sempre achara que mataria uma pessoa de verdade… Um bandido ou coisa assim, e agora… Matara um mendigo. Os rapazes donos do cachorro puseram a mão, um em cada ombro do policial e o consolaram, propondo um acordo. Ninguém nunca saberia que a primeira vez do policial tinha sido com um mendigo e ninguém saberia também que os pit bulls daqueles dois playboys haviam atacado alguém, e sido assassinados logo em seguida.
  Ninguém nunca soube. Ninguém nunca deu falta do velho. E assim foi. De onde ele estivesse observando, sabia: aquele foi mesmo um dia especial.

[29/03/07 – J.D. Crespo]
 

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6 comments

  1. Bella · Janeiro 19, 2010

    Esse conto é mesmo especial.

  2. Adriana · Janeiro 21, 2010

    Não é, muito, similiar, mas me lembrou O velho e o mar. Realmente, é um conto especial… Parabéns pelo 100° post =D

    • Dos Sonhos · Janeiro 22, 2010

      Não é muito similar? Que bom, porque…

      Hahaha, foi inspirado em O velho e o mar e uma canção do pink floyd.

      Ah! e Obrigado =)

  3. Adriana · Janeiro 22, 2010

    Foi mal rs, na hora que li me veio O velho e o mar na cabeça, mas não achei que tinha interligações… Enfim, belas inspirações Pink Floyd e Hemingway =D.

    • Dos Sonhos · Janeiro 22, 2010

      Haha, valeu =D.

      Na época, eu era um garoto e tinha acabado de conhecer o Hemingway e tinha acabado de ir no show do Roger Waters (dia 23/03/07, mais ou menos uma semana antes).

      Ah! E a música é Us and Them (mais o rítmo e a atmosfera, eu nem sabia a letra da música na época haha… E hoje acho isso engraçado, por causa do final da letra da música).

  4. maracuja · Janeiro 26, 2010

    vc ainda é um garoto… huahua naum se iluda… esse conto é foda… vc sempre foi bom, mas gosto da leveza de hj tbm…
    beijos

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