A Dama de Espadas

 

  O carnaval já passou. Não vi sinal de fumaça ou recebi algum postal de lugar inóspito. Não consigo lembrar onde foi que guardamos o esboço para o nosso calendário paralelo deste novo ano gregoriano. Dois mil e dez. Gostoso de falar em voz alta, pausadamente. É Redondo.
  Esses feriados religiosos são perfeito para nós, não praticantes da espiritualidade moldada. O que já fizemos com eles. Quantas estradas! Eles atingem à lógica da rotina do trabalho, nos proporcionando um respiro, de descanso, para a dura labuta.
  Nos curtos, de um ou dois dias, eu abria os armários. Aqueles que a gente tinha medo de abrir porque sabia que tudo estava tão perfeitamente encaixado que abrindo, poderia cair na cabeça um pedaço de qualquer coisa que clamava por luz do dia. As gavetas, então! Elas me proporcionavam o desafio da paciência, de tanta bagunça e, ao mesmo tempo, o pequeno prazer de parar um instante do mundo, para mergulhar nas lembranças da existência humana.
  Eram sempre cartas, notas fiscais, fotografias em 3X4, marcadores de livros, clips – muitos- canetas velhas, chaveiros vazios. Cartões de visita de pessoas que encontrávamos no meio do caminho. Além de uma gama de objetos que guardávamos pensando que “um dia…” cada um seria indispensavelmente útil. Obviamente, nem lembrava que existiam.
  Neste carnaval fiz o contrário. Guardei você naquela gaveta. Abri os armários e joguei fora as caixas de cartas que me escrevera. Sem olhar. As lembranças nunca saíram de perto de mim. Poderia declamar cada carta que me fizera, daquelas quantas em que você me pede paciência ou perdão pelo seu silêncio ou ausência absoluta. Pede para explicar para as crianças que seu trabalho é assim, que eles precisam aceitar isso sem dramas. Poderia transcrever os escritos de promessas.
  Você não conseguiu aprender que não se promete na incerteza da Vida. Nem para seus filhos. Eu falei tanto. Pensava, que, pelo menos naquela época, você me ouvia.
  As crianças te escreveram. Depois da visita na casa da vó Anita, foram ao correio com a minha irmã. Não sei o que escreveram. É para você, não para mim. Só sei que o João fez um desenho lindo e a Ana pôs folhas de plátano no envelope pardo. Ao menos avise quando receber.
  Quanto a mim, prefiro falar-lhe quando vier. Procure me avisar quando estiver na cidade. Eu troquei as fechaduras da casa e joguei fora a chave da gaveta.

 

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2 comments

  1. maracuja · Janeiro 26, 2010

    Quanto a mim, prefiro falar-lhe quando vier. Procure me avisar quando estiver na cidade. Eu troquei as fechaduras da casa e joguei fora a chave da gaveta.

  2. Dos Sonhos · Janeiro 26, 2010

    Assim como minha irmã, gosto do último parágrafo. É forte, bem forte, parece com você, parece mesmo.

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