O Brilho Rosicler

 

“Rosicler – adj. 1. De uma tonalidade róseo-pálida que lembra a da aurora. sm. 2. Essa tonalidade.”

  Era uma vez uma menina, muito pequenininha, de cabelos escuros e sorriso inocente. Seus pais a chamavam de Lulu, e davam-lhe boa educação, bons modos, para que ela se transformasse no maior símbolo de sucesso da próxima geração da família. Como se pode perceber, ela não era de uma origem qualquer, tanto o pai quanto a mãe haviam nascido bem pobres e através de muito estudo conseguiram fazer seus nomes, dando um grande salto para a classe média alta.
  É claro que eles esperavam que a filha se tornasse sucessora do trabalho deles, fazendo uma boa faculdade. Mas ainda tinha muito caminho pela frente, Lulu acabava de completar dois aninhos de idade. E como presente de aniversário, pediu para que a levassem no zoológico. Como? Somente puxando a saia da mãe e pedindo: “Fantío! Fantío!”. Queria dizer na verdade fantinho, ou melhor, elefante. Esse era o animal que a fazia gostar tanto do zoológico. Os pais perguntaram se ela não preferia ir a algum lugar especial no aniversário, mas não, era o “Fantío” ou muito choro e pirraça.
  Eles sabiam que não podiam controlar a menina em relação a isso. Certa vez, a levaram em outro zoológico para ver se ela deixava de ter teimosia com aquele bicho em especial. A menina procurou pelo seu elefante e não o encontrou. Berrou até não poder mais, seus pais nunca esqueceram aquele dia. Por essas e outras, atenderam ao pedido da pequena e levaram-na ao seu lugar preferido.
  Alguns funcionários já até reconheciam o casal e a garotinha pequenininha, sempre ansiosa pelo Fantío, e trocavam acenos e perguntas cordiais. Ao chegar no criadouro, a garotinha branquinha de cabelo castanho escuro, já comprido, corria com a franja balançando para esticar seu braço através da grade, e ver se encostava no elefante, o único do zoológico. Havia uma vala média que a separava por pouco mais de um metro o bracinho esticado e a tromba do “Fantío”, também esticada ao máximo. Não conseguiriam se tocar a não ser que ambos crescessem mais.
  Mesmo sem sucesso no toque, a menininha pulava e ficava conversando coisas ininteligíveis com o seu amigo animal. Seus olhos o refletiam, sorrindo do mesmo jeito que ela, fazendo peraltices para animá-la e tendo a cada segundo a sua cor rosa – numa tonalidade pálida como a aurora – brilhando mais intensamente. Ela adorava quando o elefante levantava as patas dianteiras, a fim de imitar um cavalo. Os pais observavam sua felicidade, alegres com o fato de terem uma filha saudável que se contentava com tão pouco.
  Havia um homem que cuidava do Fantío – nome que o Zoológico mesmo adotou para o elefante depois de algumas visitas de Lulu ao animal. Ele sempre trocava algumas palavras com os pais da menina. Dizia que o animal sob seus cuidados era muito isolado e parecia triste sempre, só alterava seu humor nos dias em que a garotinha dos cabelos negros ia lá. Formou-se uma forte conexão entre ambos; alguns anos mais tarde, ela jurou que seriam amigos para sempre.
  Mas os sonhos de uma criança não se tornam realidade freqüentemente, e a medida que os anos passavam a necessidade de Lulu de ver o Fantío já diminuía, apesar de nunca desaparecer. Certo dia, quando estava na primeira série trouxe suas amigas do colégio para apresentá-las ao tão falado elefante. As amigas se desapontaram, não viram nele a magia que a encantava. Lentamente Lulu começou a dividir a atenção de Fantío com a de suas amigas, deixando-o muitas vezes de lado.
  Gradativamente, ambos cresceram e ela já não era mais Lulu – virara Lúcia. Tinha seios, menstruação e esperava um dia ter namorado. Por causa dos pais, estudava muito e queria se formar, ter uma carreira sólida. Tentava deixar a puberdade de lado para ser sempre a número um de sua turma, mas a natureza é sempre mais forte. Um dia, um menino se apresentou para ela, disse coisas românticas e trouxe flores.
  Naquele dia, Lúcia iniciou seu primeiro namoro, e ficou muito empolgada com isso. Por algum motivo bobo, pensava nos tempos em que era pequena. Foi quando percebeu que não visitava o Fantío há muito tempo. Decidiu vê-lo, para contar-lhe sua vida, como fazia quando tinha dois anos de idade. Fora ao zoológico e o vira muito chateado, talvez porque ela não o visitava muitas vezes. Mas ela tentou animá-lo, contou do seu novo namorado, Paulo, e sorriu como nunca havia sorrido antes. O elefante deixou a tristeza de lado e se animou, fazendo seus malabarismos de antigamente, mesmo estando maior e um pouco mais velho.
  A garota agora tinha espinhas, corpo delineado e quilinhos extras. Porém, mantinha a mesma franja, talvez mais clara que antes, mas ainda assim castanho. O elefante ainda aparecia rosa como a aurora em seus olhos, mas não tão rosa, parecia ter perdido um pouco do brilho. Ela não se importava, ainda era o Fantío que tanto gostou a sua vida inteira. O homem que o tratava havia sido trocado, talvez Lúcia fosse a única ligação de Fantío com o passado próximo, que nunca foi esquecido e que nunca será.
  Vivia meio no mundo da lua, Lúcia amava seu namorado. O tempo voou, ficaram juntos aquele ano escolar inteiro e o seguinte, que para ela foram os melhores e mais rápidos de sua vida. Não se cansava de “L + P” e besteirinhas ridiculamente românticas como flores e bombons. Seu sorriso mais uma vez emanava felicidade, como daquela vez que sorrira quatorze anos atrás em seu segundo aniversário. Essa semelhança fazia sentido, pois ela realmente se sentia uma criança quando estava com Paulo.
  Iniciava-se mais um ano letivo, o ultimo no colégio. As aulas estavam mais intensas, teve de parar de pensar no namorado por um tempo para se concentrar nos estudos. Aumentava o grau de dificuldade, o numero de exercícios e, conseqüentemente, o estresse.   Até que certo dia Paulo e ela tiveram uma briga, a maior que já havia acontecido entre eles, com uma característica inédita em suas discussões: irreversível. Ele reclamava que ela só queria saber de estudar e ela resmungava que ele não queria nada da vida. Por essa e outras, a briga ocasionou o término do namoro.
  Ela quis se esconder, desaparecer do mundo, então correu com o rosto vermelho em lágrimas para algum lugar que não a encontrassem, nem os pais preocupados, nem o ex-namorado, nem amiga alguma. Lembrou-se fatalmente do dia em que havia começado a namorar Paulo e foi para o Zoológico, sem intuito de ver o elefante, mas querendo fugir de tudo. Andou sem rumo; uma fina garoa caía, e em pouco tempo a garoa se tornou chuva forte. Não queria ver ninguém ainda, andava de cabeça baixa quando ouviu um som oriundo certamente do único elefante que habitou aquele lugar nos últimos anos.
  Levantou a cabeça. Fantío estava quase cinza, ou como ela o via, sem cor alguma. Ao vê-lo lembrava-se do seu namorado, do dia que o conhecera e chorava ainda mais. Ele estava chocho, sem graça. Foi quando percebeu algo estranho: algumas gotas de chuva atingiam a pele do animal, e o local atingido ficava borrado momentaneamente até se refazer. Depois de observá-lo andando vagarosamente até a grade, reparou que as gotas de chuva que faziam isso acontecer caíam simultaneamente às suas lágrimas.
  O elefante borrava-se numa mistura disforme com o ambiente a sua volta, por muitas vezes sua cor ficava tão fraca que ele parecia estar desaparecendo. Lúcia com pena se aproximou da grade, e tentou pensar em algo que a deixasse feliz, uma memória boa. Foi então que esticou o seu braço através da grade e Fantío fez o mesmo com sua tromba como se ele entendesse perfeitamente o humor humano. Ambos fizeram o máximo de esforço e a ponta do dedo dela tocou a ponta da tromba do elefante.
  Naquele momento de êxito, ela esboçou um sorriso contente. O céu compreendeu a mensagem e parou de chover. Fantío foi se colorindo lentamente de rosa; a cor surgiu do toque dela e foi se espalhando rapidamente, o resto de seu corpo ia ganhando a coloração rosada de sempre. Num passe de mágica, ele brilhava intensamente nos olhos de Lúcia, fazendo-a sorrir e esquecer dos estresses de tudo que vivia. Era fim de tarde e o céu tomou um tom alaranjado que emoldurou o elefante, como se fosse obra de um artista.
  Lúcia partiu para casa alegre, não sabia exatamente o por quê. Abriu a porta, enxergou a mãe pela porta entreaberta da cozinha e correu até lá. Abraçou-a pelas costas com um sorriso no rosto e perguntou inocentemente:
– Como eu era quando tinha dois anos de idade?
  A mãe respondeu “Você ainda é a garotinha mais linda do mundo”. Ela gostou da resposta, e continuou com aquele sorriso bobo no rosto. Foi a vez da mãe perguntar:
– Que sorriso tão incomum atualmente é esse?
– Eu só… Quero manter quem eu amo tão feliz quanto eu estou.
  E no Zoológico, Fantío tinha seu rosa brilhando nos olhos de uma outra criancinha…

Ilustração: Maracujá
[J.D. Crespo – 27/11/07]

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4 comments

  1. Anamel · Janeiro 16, 2010

    “A qualquer distância, o outro te alcança…” :)

  2. maracuja · Janeiro 16, 2010

    aaaaaaaaaaaaaaaaaaa q lindriooo fiquei muito feliz de ver isso aquiiii to com saudades coisaaaa beijãooooooo

  3. Lulu · Outubro 18, 2010

    Saudades do Fantío…

  4. Pingback: el disfraz, el mate, la piedra y el polvo de estrellas… « bloco de notas

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