Tawantinsuyu

 

  Quando cheguei no lugar marcado, o dono do bar fez questão de vir apertar minha mão.
– Ei, Luis, eu sei que tu é um cara forte, nunca esqueço daquele dia que você bebeu de manhã até a manhã do dia seguinte, ei, isso não é pra qualquer um.
  Eu sorri, o Gleyd sempre fazia a gente sorrir, era um cara gordo e queimado de sol. Segui andando, ela já estava lá.
  Tinha tido um bocado de tempo pra pensar um pouco antes, mas os planos desmoronaram quando vi a garota sentada numa mesa vazia, me esperando.
  Era de tardinha e eu peguei um ônibus um pouco antes. Foi uma viagem longa pra alguém que tinha muito pra pensar em pouco tempo e ainda assim não se sentia com cabeça pra pensar em nada. O centro do Rio nunca foi tão longe assim de Niterói, mas as coisas em geral estavam compridas demais, meio preto e brancas.
  As peças não se conectavam mesmo depois de chegar. E as mesmas peças perderam qualquer possibilidade de se encontrarem quando ela falou comigo:
– Como é que foi lá?
– Você sabe como é… Não gosto de ir nesses lugares… Não me sinto bem…
– Mas o que eles disseram?
– Disseram que meu irmão vai mais ou menos bem… Mas você sabe, ele não chegou lá a toa.
– É, eu sei, é complicado.
  O Gleyd trouxe uma cerveja, como sempre. Nós começamos a beber em silêncio. Tinha tanta palavra querendo ser dita que não dizíamos nenhuma. Virei o resto do copo e, enfim, falei:
– E agora?
– Agora a gente torce e espera, né?
– Não é disso que eu to falando, você sabe.
  Ela não respondeu. Veio outra cerveja e nós bebemos em menos de um minuto. Tinha uma coisa asfixiante no ar. A gente não aprendeu como prosseguir, não se ensina isso em lugar nenhum. Mais uma e mais outra, já estávamos na quinta quando ela decidiu falar.
– Vamos não beber tanto, você lembra o que aconteceu da última vez.
  Eu abri a boca, mas fiquei quieto, raciocinei, analisei mentalmente o dia que ela citou e disse:
– Vamos beber tanto, não me arrependo do que aconteceu da última vez.
– Parece seu irmão falando.
– Não fale besteira.
  O sol estava se pondo, mas era pelos prédios e dali não dava pra ver. Por algum motivo eu queria muito ver o pôr do sol e levantei da mesa. Disse “Ei, Gleyd, a gente já volta” e puxei a garota pelo braço.
  Da rua, víamos tudo laranja. Ficava bem mesclado com a pele dela, mais escura que a minha. E eu perguntei, olhando para o horizonte:
– Quando você vai lá pra visitar?
– Não sei, mas eu vou lá dar um beijo nele. Vai dar uma pena ver ele tão pálido.
– É de cortar o coração.
  Quando percebi, nós estávamos nos abraçando e ela me disse ao pé do ouvido:
– Eu conheço você, sei que é delicado, na verdade, não importa o número de cervejas.
  Eu chorei, chorei bastante, abaixado, no ombro dela.
– É o meu irmão.
– Eu sei, eu sei.
  E então, eu a apertei com mais força. Já estava escuro, o sol se pôs. Falei que a gente devia voltar pro bar, ela respondeu assim: “Enxuga essa cara, garoto!”.
  Sentamos e pedimos a saídera. Eu virei o primeiro copo e respirei fundo:
– Mas… Nós estamos aqui, certo?
  Ela parou, pensou no que eu disse e repetiu pausadamente.
– Nós… estamos… aqui.
  Dessa vez, ela respirou fundo, e olhando pra mim com um olhar perdido, disse:
– Agora.

 

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5 comments

  1. Joca Rocha · Janeiro 12, 2010

    Ta bom nisso!

  2. Bella · Janeiro 12, 2010

    O Agora é só o que importa, afinal. E isso é muito bom.

  3. Soraia Alves · Janeiro 13, 2010

    A forma como você descreve as coisas é muito, faz a gente ver a cena na cabeça como um filme.
    Parabéns

  4. Juliana Dias · Janeiro 14, 2010

    É só enxugar a cara e pensar no agora…
    Porque, afinal, nós estamos aqui…

  5. maracuja · Janeiro 26, 2010

    tempo presente

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