Rei de Ouros

  

  O fim do ano se aproxima. A vida nunca conseguiu nos colocar na data precisa, do calendário gregoriano, para comemorarmos juntos a tal da virada de ano novo. Sempre havia uma pedra ou uma flor no meio do caminho. A sorte é a criatividade e fuga para o nosso calendário particular.
  O dia em que nos conhecemos era próximo da data. Quase. Vinte e oito de dezembro. Você lembra? Há anos. Eu sei que não, até porque você tem certeza de que eu nunca esqueceria. E assim, vivo a lhe dizer, ou mandar e-mails e anotar bilhetes com as datas importantes em nossas vidas, os aniversários de amigos, festas nas famílias e coisas deste tipo. Nos fins de anos, a gente sempre senta e faz a listinha da retrospectiva do ano. Das viagens, das conversas e até das neuras de casal jovem que passamos.
  Neste dezembro, sou eu quem senta na varanda. A gata ficou lá embaixo, estirada no frio piso da garagem. É verão, e desta vez, passaremos separados. E por opção. Minha. E você, covarde, acatou. E viajou. Eu precisava ficar em casa. Faltava-me o silêncio puro, que nesta época do ano é constante. A cidade vazia. Todos saem. Isso me deixa mais calma, que eu quase não penso que Janeiro não será “nosso”. Mas meu e teu. Separados, distantes.
  Mesmo com todo esse silencio que me visto, queria muito poder te encontrar, ou que você me ligasse. A retrospectiva desta vez está oscilando com a restituição de cartas de baralho que haviam sido escondidas embaixo da mesa. Você as rejeitou. Eu guardei comigo, um dia elas seriam importantes.
  Sonhei detalhadamente com as cartas esta noite. Veio até com cheiro de talco, de baralho guardado. Você as reconhecia, uma a uma e ia me dizendo em qual jogada poderíamos pôr para que ganhássemos a partida, virando o jogo dos confiantes adversários. Fiquei tão feliz. Acordei sorrindo. Uma sensação de alívio. Ganhamos mais uma partida.
  Na varanda, eu volto para a retrospectiva. Vou para 2013 e começo a fazer os desejos de ano novo. A gente sempre começa pelos amigos, lembra? Não consegui. Você habita minha mente nesse instante. Nós dois. Melhor não contrariar. Mudo as regras sozinha – minha licença poética – e começo por nós dois.
  Vim nos desejar lucidez. Paz e silêncio. E muita “canastra”. Desejo desde já. Tudo isso e mais um pouco. Quero mais conversas. Mais jantares feito a dois só para os dois. Um ano com muitas visitas em nossa casinha. E muitas leituras no jardim. Cafés da Manhã dominicais intermináveis, com banhos de chuva no fim da tarde. E brigas, o nosso melhor tempero. Sem pressa. E que, por fim, seja um ano sem promessas. Meu amor por você insiste em mim. Fica tranqüilo, que quando voltar, haverá uma taça para você participar do brinde. Desde que não seja para brindar o próximo ano, no calendário gregoriano.

28/12/2010
Nina Sö

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3 comments

  1. Ana Amélia (anamel) · Dezembro 28, 2009

    “Meu amor por você insiste em mim”
    Não tenho palavras pra esse, porque tudo me encantou: inicio, meio e fim… Um dia eu aprendo!

  2. Bella · Janeiro 2, 2010

    Que delícia de conto! Gostei muito.

  3. maracuja · Janeiro 8, 2010

    esse ano não vai ser igual aquele que passou… e não brinquei vc tbm não brincou…

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