Nossos Amigos

 

  Os cigarros acesos pra manter a gente desperto. Nós – isto é, eu e o Thor – ficamos sentados no chão de tábuas empoeirados observando às paredes. Eles estão lá, minhas costas nas costas dele, estamos rodeados por quatro paredes muito importantes.
  Elas fazem eu me sentir mais leve, menos pressionada, sem aquele mundo de responsabilidades. Como se hovesse um mundo a parte só pra nós, aqui. Mas é ruim, agora é ruim. É leve demais, eu tento fugir da minha pele aqui, é triste. Eu digo isso ao Thor e pergunto pras paredes “O que a gente vai fazer sem o peso de vocês?”.
  A resposta dele é cheia de pausas, com o olhar perdido entre a fumaça dos nossos cigarros. “É. É assim mesmo. As paredes, elas lamentam”. Abraço minhas pernas. Deveria haver um mundo selvagem pra eu conhecer, mas eu fico aqui presas as minhas pernas, sem saber onde foram minhas mães, onde foram minhas filhas, meus pais, minhas irmã e irmãos, não sei mais de quem sou.
  O Thor percebe que eu estou chorando e vira, num abraço por trás. De todos, nós talvez fossemos o que nos falávamos menos – coincidência. Ele beija meu pescoço e suas mãos deslizam sobre meu corpo. Quando meus olhos se abrem, não são lágrimas, são eles lá. Vestidos de branco, todos os quatro me olham. A Vanessa, minha melhor amiga, fica sentada do mesmo jeito que eu, na minha frente, me olhando.
  Ele avança e me puxa pros braços dele e eu não consigo parar de prestar atenção nos nossos amigos lá, nos observando. Eu sabia que eles jamais poderiam estar lá, mas sabia ao mesmo tempo que eles com certeza estavam lá. Mais presentes que nós dois, talvez.
  “Volta, volta pra mim”. O Pablo – o mais engraçado da gente – aponta rindo para o Thor, ele estava falando comigo. Eu balanço a cabeça e digo que tá tudo bem. Mas naquela casa vazia eu não estava.
  Começou a chover e já estava escuro. O cheiro de chuva só me trouxe lembranças, perto da janela Lidi e Luis, o casal briguento se abraçava de cabeças baixas. O beijo do Thor me atinge e então, eu me percebo deitada, sem a blusa e ele está me olhando. É bonito, o único que ainda vive.
  “Olha, todos os nossos amigos são gotas de chuva”. Eu falei, deitada nas tábuas empoeiradas, ao lado das bitucas de cigarro. Ele deitou ao meu lado e disse “Todos os nossos amigos ainda estão no rítmo certo”.
  Nós ficamos observando as paredes. Um coração com L + L dentro. “Payaso Pablo y sua trupe esteve aqui”. Um bufalo (imitando um desenho rupestre). “Todos os nossos amigos…” ele repete.
  “Eles são lindos.”. Nas paredes há uma frase minha “Mas as pessoas da sala de jantar…”. E há uma frase dele “Feliz 1968”. O Pablo havia escrito do lado “Um ano começa na birita do Reveillon”. Então, o Thor diz “Eles são memória, agora”. Eram coisas sem fim nas paredes: “V de Vá Nessa”, “You know the day destroys the night”, “Pagliacci Pablo e sua trupe esteve aqui”.
  “Eles são palavras”. Ele puxa a minha mão e nós começamos a nos beijar outra vez. Eu paro, levanto e olho para a parte perto da porta onde tem nossos nomes. Ele pára e olha também.

Vanessa
THOR
Luis Vinteum
Lidilidi
Mel
 Pablo, le fou

           A TRUPE

  Eu sorrio ao ler todos os nomes, inclusive o meu. Seguro a mão do Thor, beijo lentamente o pescoço dele e me abro ao presente – estou cercada de amigos…

  Eu acordo e a chuva já passou, mas ainda não amanheceu. O Thor dorme com as próprias roupas como cobertor, encolhido, do meu lado. Nem sinal da Vanessa ou do casal. Há apenas alguém perto da porta e pela altura e pelo cabelo bagunçado, é o Pablo. Ele se vira e olha nos meus olhos. Sorri. Estava sempre sorrindo.
  Então, o sol nasce e um raio de sol cheio de poeira faz o palhaço desaparecer para sempre. Vou até a janela e sinto o cheiro gostoso de manhã ensolarada e grama molhada.

Anúncios

5 comments

  1. Ana Amélia (anamel) · Dezembro 28, 2009

    Uma maneira muito sensível e singela de se acordar. Obrigada!
    “Olha, todos os nossos amigos são gotas de chuva.” e depois a frase do ritmo… Genial.

    Beijos!

  2. Adriana · Dezembro 28, 2009

    Adorei essa frase: “Olha, todos os nossos amigos são gotas de chuva.”, seguida de outra também muito real: “Um ano começa na birita do Reveillon” rs, vou passar mais vezes aqui =).

  3. Bella · Dezembro 28, 2009

    Gostei muito. Não sei dizer mais do que isso.

  4. vörös · Dezembro 29, 2009

    Senti a temperatura das paredes, e a textura da grossa camada de pó nas tábuas.

    Pelo menos eles continuaram amigos.

    Triste. Bonito. Balança a gente.

  5. Juliana Dias · Dezembro 30, 2009

    Bonito texto de um (muito provável) futuro roteirista (de sucesso)… rsrsr
    Me lembrou muito uma peça de teatro de uma amiga minha…
    De fato, deu para “sentir a temperatura das paredes, e a textura da grossa camada de pó nas tábuas”

    As coisas não voltam, e numa casa vazia sempre dá vontade de abraçar as próprias pernas… “O que a gente vai fazer sem o peso de vocês?”

    “Eu acordo e a chuva já passou, mas ainda não amanheceu”.
    A melhor frase do texto, na minha opinião…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s