O Ano que Vem

 

  Agora, só no ano que vem. O paletó empapado de suor e os quadris com o peso do amontoado de anos que aconteceram. Já é quarta-feira de cinzas.
  A gravata acordará com o bustiê purpurinado. A mulher ainda estará na cama, fingindo dormir, quando a porta abrir e ele chegar. O cansaço chama a saudade berrando “O carnaval acabou!”.
  Por entre serpentinas e confetes, ouvia-se em sussurros “Agora, só no ano que vem.”. No armário, as camisas sociais importadas aproveitavam o último dia de repouso. Cabisbaixo, andando vagarosamente, chutou uma latinha de cerveja. Já tinha gente limpando tudo, mas nada mudava o sentimento de vazio dele.
  O homem conseguia imaginar seu chefe dizendo “É, foi inesquecível até nos esquecermos.”. Um aperto no peito fazia ecoar “O carnaval acabou ou ou…”. A mulher dele dirá que é hora de voltar à vida.
  No entanto, sozinho na sua arquibancada de pensamentos, ele discordará “O carnaval é o mais vivo que a vida fica”. Agora, só ano que vem. E quando chega é sempre bom, é o melhor, é inesquecível.
  Então ele ergue a cabeça, o sorriso brota em seu rosto. A melhor festa da sua vida estava por vir no próximo ano. E o carnaval acabou.

[J.D. Crespo – 05/12/08]

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2 comments

  1. Ana · Novembro 12, 2009

    Você me surpreende.

  2. trio eletrico · Novembro 13, 2009

    Parabens pelo blog!

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