Fábulas (A Tartaruga e a Lebre)/1

 

Todos os animais estavam ansiosos pela grande corrida. A Tartaruga desafiara a Lebre. Ciente da própria superioridade, a Lebre aceitou o desafio certa de que venceria.

- Eu sou muito mais rápido que você – disse a Lebre.
- Mas eu vou vencer a corrida. – constatou confiante a Tartaruga.

O percurso era um caminho comprido pela floresta. O juiz era a Raposa. O hipopótamo recolhia as apostas. As torcidas de amigos da Tartaruga estava lá, no páreo: modesta mas festiva. A maioria dos animais acreditavam na vitória da veloz Lebre.

No entanto, tanto a Lebre quanto a Tartaruga pareciam tranqüilos. Recolhidas as apostas, a Raposa enfim preparou-se para dar a largada.

- Vai!

E nesse segundo, a Lebre disparou e a em passos lentos seguiu a Tartaruga.

Seis horas de corrida e, exausta, chega a Tartaruga na linha de chegada. Seus amigos a consolam dizendo que a Lebre é realmente muito rápida e imbatível. A Lebre que vencera a corrida fazia mais de uma hora, tirava uma soneca de campeão.

MORAL DA HISTÓRIA/1: Um corpo X que corre à uma velocidade média de 14 m/s é mais rápido que um Y que corre à 0,2 m/s.
MORAL DA HISTÓRIA/2: Leia fábulas e não cometa os mesmo erros dos animais criados por Esopo.
MORAL DA HISTÓRIA/3: Os tempos mudaram.
MORAL DA HISTÓRIA/4: Devagar se vai longe. Rápido se vai longe, em menos da metade do tempo.

To be continued…

Adwars

  

  O Papai Noel ficou pasmo quando sentiu o cano frio e metálico na nuca. Foi-lhe dado uma garrafa com líquido negro. No primeiro gole ele conseguiu sentir o gosto ácido do veneno. Desabou.
  Ao acordar, checou seu corpo, seu trenó e seu saco de presentes – tudo estava no lugar. Somente percebeu – sem entender – a mudança ao passar pelo espelho de outra casa, bem mais tarde.
  No dia seguinte, o jornal tinha um registro histórico – uma foto de Papai Noel com seu trenó voador. O mais surpreendente era sua roupa: ao invés do tradicional conjuntinho rubro o velhinho vestia a parte de cima apenas de vermelho, o cinto era branco e as calças azuis.

 

Hamlet Chicken Gourmet

 

  Ele resmungou sobre a vida “de hoje em dia”.
- Então, me diz alguma coisa que você gosta.
- Gosto quando uma pessoa é capaz de rir de si mesma. Nem isso as pessoas fazem mais.
  O McDonald’s tinha bastante gente.
- Você gosta de rir.
- Todo mundo gosta, o problema é que algumas pessoas forçam a risada.
  Ela riu.
- Você é engraçado.
- Engraçado? Eu não sou engraçado.
- Então, o que é? – ela estava séria.
  Os dois ficaram olhando o movimento de todo mundo, por um ou dois minutos.
- Ali. Aquilo é muito engraçado.
  Um homem grande, com jaqueta preta de couro vinha andando em direção a uma mesa perto da deles. Na sua bandeja, umas quatro pilhas de caixinhas com “Chicken Gourmet”.
  Depois de uma breve análise do sujeito, os dois estavam rindo da estranheza que o motoqueiro chicken gourmet emanava.
- Ele, aquele cara é engraçado. É só olhar prá cara dele.
  Ela olhou mais uma vez, riu mais uma vez e concordou com a cabeça.
- Agora, que você já sabe o que é engraçado, é a sua vez.
  Novamente, os dois ficaram espiando as pessoas das mesas em volta. Não demorou muito.
- Atrás do motoqueiro chicken gourmet.
  Ele olhou discretamente: dois rapazes, um com papéis na mão e o outro com cara séria segurando um Big Mac com o braço estendido.
- Que esquisito.
- Hamlet, eles estão ensaiando Hamlet, eu consigo ouvir.
  E então, o suposto Hamlet dá uma mordida no suposto crânio. Os dois riem. O homem fala:
- Só tem gente estranha no McDonalds.
- Isso inclui nós?
- Porque não? Aposto que tem alguém rindo por causa do casal que fica em silêncio por um tempo, depois ri e fica em silêncio e ri.
- Nós somos estranhos! – e ela acaba rindo outra vez.
  De repente, Pseudo Hamlet assassina Pseudo Claudius e sangue (isto é, ketchup) voa contra o motoqueiro chicken gourmet. O grandão levanta furioso e derruba a mesa dos dois “atores” no chão. E grita com eles.
- Hamlet e Claudius vs. O Motoqueiro Chicken Gourmet.
  Ela riu e respondeu:
- Acho que o próximo rei da Dinamarca vai usar jaqueta de couro e comer Chicken Gourmet.
  Dessa vez, quem riu foi ele.
  Perto, os homens discutiam aos berros. Uma confusão geral.
- Melhor a gente sair daqui.
- Por quê?
  Dois segundos e um piscar de olhos depois o Pseudo Hamlet foi arremessado contra outra mesa (sem gente) e o alvoroço no McDonalds aumentou. Tinha ketchup na jaqueta do motoqueiro, na parede e até no teto.
  O ator de Hamlet caiu em cima de uma embalagem de mostarda que explodiu e, além de pegar na roupa dele, sujou o chão todo, inclusive o pé de muita gente por perto.
  O homem levantou e levou a garota pela mão. Saíram de lá correndo. Ela sorria um sorrisão. Ele também parecia feliz.
- Foi a melhor janta da minha vida.
  Depois de dizer isso, a garota caiu em pleno shopping. Com um problema na perna, ela foi de cara no chão.
  Assustado, o homem voltou e a socorreu. Preocupado, perguntou se estava tudo bem. Ela virou o rosto e riu:
- Foi engraçado, não foi?
  Ainda que um pouco nervoso, ele riu também. Fez que sim com a cabeça.
- Um tombo e tanto, uma cassetada.
  Depois de uns dois segundo de silêncio, ela constatou.
- É a bateria da minha perna, só isso.
  Ele tinha uma novinha pronta para trocar no bolso da calça. Aliás, ele sempre andava com a bateria não só da perna, mas todas as outras também. Ainda assim, ele simplesmente levantou-a nos braços e levou-a assim até o carro, no estacionamento. Deitou-a no banco de trás.
- Você é muito especial. Muito.
  Os olhos dela pousaram nos dele e algo explodiu dentro da cabeça dos dois, uma loucura, algo assim, sem nome ainda – que nenhum dos dois tinha experimentado antes.
  Ele foi para o volante e enquanto ligava o carro, ouviu a voz dela:
- Porque você disse isso?
  Sem virar para trás, respondeu.
- Só queria que você soubesse.

 

Who does?

 

  Naquele momento: um velho Russo olha para a janela, em Igarka, com sua garrafa de Vodka na mão. Um garotinho internado num hospital em Mogadíscio, Somália, pensa que é a guerra cívil. Duas moças atravessam a Abbey Road imitando os Beatles, na Inglaterra – elas levam um susto. Sozinho, em seu quarto – um garoto de quinze anos islandês – acha que o centro do universo é ele e é por isso que aquilo está acontecendo. Um peruano de lima, lá pelos 30 anos, está alucinado e acredita que é apenas uma alucinação. Uma jovem norte-coreana nem percebe nada por causa do rosto afundado no travesseiro. Uma criança de Iowa, Estados Unidos, dá graças a Deus por aquilo. Um monge budista indiano chora. Uma idosa na Tasmania morre um segundo antes.
  Um casal de cariocas assiste à tudo explodir semi-nus, da janela de um apartamento do 16º andar. O prédio é danificado e o homem perde equilíbrio e cai no chão. A mulher – no caso, a amante dele – sai da cozinha com duas garrafas na mão:
- Qual você vai querer…?
  Outra explosão acontece e estilhaços destroem o vidro da janela. O homem responde, rindo:
- Pra mim, tanto faz: ou Red Label, ou Ice.
  Ou Ice.

 

255ºC

 

  Eu fechei a porta do fogão.
  Depois, lá mesmo na cozinha o clima esquentou. Nós começamos a discutir. Nem me lembro sobre o quê. Mas ela é ficou realmente puta e não queria aceitar o que eu dizia. Me mandou calar a boca e foi ver televisão na sala. Devia estar chorando também, eu conheço a garota. E em cômodos diferentes, o nosso silêncio era um filme estranho (e dublado, claro) da globo (“paparazzi”). Meu coração tava um pouco rápido demais, eu sabia o que tinha que fazer, mas não como. Nem queria.
  Uns vinte poucos minutos depois e tirei a forma do forno. Botei o conteúdo em uma vasilha e fui pra sala. Sentei ao lado dela:
- Acabou de sair do forno, cuidado, tá quente.
  Ela – sem responder – pegou um e ficou jogando de uma mão pra outra por um tempo, depois assoprou bastante e então deu mordida. Esperou esfriar mais e comeu o resto. Depois disse:
- Acho que esse é o melhor pão de queijo que eu já comi na minha vida…
  E me deu um beijo na bochecha.

 

Dia 18, às 15:44, Ed. Renoir, 231, apto. 1201

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Eu estava com um cigarro na boca, jogado no sofá. O nariz fungando. Sol e calor, era de tarde. Sem camisa, deslizei para o chão sentindo meu corpo saindo do couro do sofá e indo contra o veludo do carpete. Sabe, uma dessas coisas que a gente faz quando ninguém tá vendo. Fiquei me olhando no espelho enquanto deitava no chão. O cigarro quase escorregou da minha boca.

No espelho: eu estava mesmo magrelo, tanto que minhas costelas saltavam. Vinte cinco anos e uma vida razoável. Nariz fungando é um saco. Agora deitado, meus olhos ficaram vidrados na luminária. Uma bem velha e grande, quase não cabia no apartamento. Comecei a pensar no sonho que eu tinha tido mais cedo.

Renata e eu, tudo começava com nós dois num carro, aliás: no carro. Depois…

Toc-toc, alguém bateu na porta, acabou com minha reflexão. Levantei. Funguei o nariz. E fui até lá. Pelo olho mágico: um homem conhecido de terno. Era ele, veio pegar mais pra revender. Eu não tinha mais. Pensei em achar meu celular e avisar ao meu chefe que eu estava em perigo. A porta abriu de repente e o braço do homem me pegou pelo pescoço. O cigarro caiu da minha boca, ele me segurou num mata-leão.

-Boa noite, Edgar.

As palavras foram ditas por ele e eu não podia nem sequer responder. Eu não conseguia respirar. Não. Não era o momento de morrer ainda. Não agora. Lutei, mas fui perdendo as forças. Muco escorreu do meu nariz no braço dele. Sentindo algo estranhou, ele afrouxou e eu consegui me soltar.

Dei dois passos e ele num pulo me jogou contra a televisão. A tv se espatifou no chão, eu caí com o diafragma contra a mesinha de madeira. E antes que pude pensar em sentir falta de ar, a grande mão branca do bruta montes já estava no meu pescoço. Acho que agora era de morrer, talvez a gente não possa evitar.

Mas antes da minha visão perder o foco completamente, eu nem enxergava a careca reluzente do homem. Eu enxergava a minha loucura, no estilo Brás Cubas. Era só o mesmo sonho de pouco tempo atás. O carro indo e indo e batendo. Tanto eu como a Renata, nós não parecíamos bem, vivos apenas.

E então, o carro começou a pegar fogo. Não, não, não era o carro. Minha visão sumiu e eu só consegui sentir o inferno vindo pegar a mim e ao filho da puta de careca reluzente.
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King Kong

 
  Num jantar importante, eu comecei a sentir a garganta seca e pedi uma dose de Vodka. Absolut? Perguntei se eles tinham Kovac, Natasha, Leonoff ou Balalaika. Eles não tinham.
  Então deixa pra lá.
  Conversei com as pessoas. Pedi um gole da coca da mulher do meu lado. Fique à vontade. Perguntei há quanto tempo ela trabalhava em Niterói. Há três ano e meio, um a mais que você. Puxa, legal.
  Seu Moreira, o chefe, tinha visto aquele filme do Tarantino, dos Bastardos. E ele se divertiu com a brincadeira que eles fizeram no bar: você pega uma carta, escreve um nome de uma pessoa famosa e passa prá pessoa do lado, que lambe a carta e cola ela na testa. Então, todo mundo tem que fazer perguntas sobre si pra descobrir quem “é”.
  Ele teve a idéia de fazer isso e aproveitar como uma dinâmica de grupo. A gente só ia escrever nome de gente da empresa. E então, começou a brincadeira.
  As pessoas participavam. E falavam coisas do tipo: eu sou corajosa e blabla(elogios)? – e todo mundo dizia que sim e era nessa falsidade que as coisas iam. Só pra impressionar o chefe. Me deu um ódio. Odeio essas coisas. Esses sorrisos colgate. Essas champagnes. E essas carnes sem graça que custam trinta reais o prato.
  Minha vez. Perguntei. Sou macho? “Sim” – todos em uníssono. Macho de verdade? – “Sim”. Fiquei quieto. Me senti na responsabilidade de acordar aquelas Barbies e Kens de quarenta e cinqüenta anos, pro papel ridículo que eles estavam fazendo.
  Gritei “Quem vocês acham que são?”. Levantei, eu estava me sentindo bem e meu coração batia de medo ao mesmo tempo. “Isso é ridículo, parem com esses sorrisos falsos!”. Afrouxei a gravata, minha garganta secou de novo. E todo mundo olhava pra mim estático. Todo alto escalão da empresa, todos “nós”. “Eu não sou patético assim, eu não sou que nem vocês, eu não sou um de vocês!”. Meus poucos cabelos pretos ficaram brancos e minha respiração ofegante.
  E eles olhavam um olhar cínico. Alguns fingiam um risada. Outros pareciam sérios. Mas um silêncio tomou o jantar da empresa. “Vocês não tem vergonha na cara?”. Eles não tinham.
  Então, alguém riu alto. E mais alguém riu também. E outra pessoa bateu palma. Fiquei nervoso. E abri os olhos pra minha família. Pros meus filhos. E sorri.
  ”Eu sou o Moreira, não sou?”
  Fui aplaudido de pé.

 

NGC

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Carnaval. Casa da namorada. Jogo do Vasco. Sogro flamenguista. Televisão ligada em canal aleatório, no mute. Radinho na sala. Só a narração e nada mais. Essa foi por pouco!. É, foi mesmo. Final do primeiro tempo.

Quarto da namorada. Beijo, beijinho. Ela se arruma pra sair. Como tá o jogo?. Ah, o Vasco não tá muito bem. E o meu pai?. Não, tudo bem com a gente. Certo. Vem cá, me dá um beijo. A gente se beija e se abraça. E se abraça e se beija. E eu bagunço meu cabelo de beatle. Tira a mão daí, vai volta pra lá pra sala. É, acho bom, o segundo tempo já deve ter começado.

Televisão ligada em canal aleatório. Sogro flamenguista quieto vendo tv. Eu, quieto. O segundo tempo ainda não começou, mas falta pouco. Penso em comentar sobre o primeiro tempo, melhor ficar quieto. Tenho vergonha.

Vai rolar a bola. Olho para a televisão. Dois animais – sei lá que bicho eram aqueles, quadrúpedes – estão acasalando. Pareciam cachorros, maiores e mais peludos e menos cachorros e… pensando bem, não tinha nada a ver com cachorros. Eu desvio o olhar com vergonha. Olho para o vidro do armarinho.

Meu cabelo está bagunçado. Meu sogro quieto e emburrado e flamenguista vira pro rádio mais uma vez.

Bola rolando! Nesse segundo tempo de Vasco e Fluminense!
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A Orquestra Mágica das Luzes

 

  Olhei para o céu. Noite. Trovoadas. Nuvens. Mas não chovia.
  Eu estava num bar, no segundo andar de um prédio, tomando um drink, segurando a carta que ele tinha me escrito. Eu não chorei enquanto lia. Terminei de beber minha Gin Tônica. Pedi mais. Aí me machuquei, com o Gin passando por entre as pedras de gelo e a água tônica depois, do mesmo jeito.
  Nunca me esqueci dele falando que a gente tinha que ser como água: disforme. Num copo, a água é o copo. Numa garrafa, a água é a garrafa. Eu lembro bem. E talvez ele seja o motivo da minha facilidade de adaptação. Eu sempre segui isso. E fui fluindo. Como um rio. Como ele dizia que tinha que ser.
  Mas ele ficou lá, a mais de 7 mil quilômetros. Eu flui pra longe dele. E eu nem percebi. E eu bebi todo o gin com tônica. Eu fui para a janela e olhei aquela cidade iluminada. Tão iluminada. Olhei pra baixo. Dois andares matam. Mas eu não fiz isso. Fiz melhor, fui embora.
  Chamei um taxi. Fui ao meu lugar especial. Lembro dele tão bem, mas tão bem, que tento fingir que estou pensando em coisas boas da gente, a verdade é que minha cabeça está naquela carta triste, tão triste. Senti frio. Estava frio.
  Tentei não olhar pela janela, ela refletia um pouco meu rosto. Não queria ver meu próprio rosto. Nem ali. Muito menos num retrovisor. Eu o veria do jeito que ele descreveu. Ia me sentir pior. Tentei pensar na cidade. Nas luzes, quantas luzes. Lembrei que essa foi a primeira coisa que eu pensei quando cheguei aqui. Quanta luz.
  Não chovia. Mas o taxista tentando quebrar o silêncio, falou que ia chover. Eu disse que maybe. Mas que maybe not, também. E ele ficou quieto. E eu também fiquei quieta. E a cidade ficou para trás, acesa e nunca quieta.
  Saltei perto do lago e quando cheguei havia um milhão de vagalumes. Tentei não olhar para o lago, eu era o lago, eu era a água, eu me machuquei desse jeito, com as os pingos de chuva cortantes. Flui demais talvez. Observei os vagalumes. Várias luzinhas. Piscando. E aparecendo. E se movendo. Como num sonho. Como o que um filme com orçamento bilionário tentaria copiar, mas que soaria falso. Jamais algo seria tão verdadeiro quanto os vagalumes.
  Eu estava chorando e nem percebi. As lágrimas me cortando o rosto. Mas eram as luzes mais bonitas que eu já vi. E trovejou mais uma vez. A carta já estava toda amassada na minha mão. Os vagalumes piscavam numa sincronia orquestral e só faltava uma música sair das suas luzes.
  Uma lágrima chegou na minha boca. Salgada. Talvez as lágrimas não estejam me cortando, talvez elas estejam cicatrizando o que já está em pedaços. Uma música começou a tocar, uma música boba, na verdade, mas era o que faltava para a orquestra. Eu a nomeei a Orquestra Mágica das Luzes. A melhor orquestra de todos os tempos, mesmo tocando Lady Gaga.
  Desliguei o celular. Desliguei as pessoas que me procuravam. Todas elas. Inclusive ele. Desliguei. Eu não precisava de nada disso. Eu sou um rio, uma lagoa, eu sou água. Num copo, eu viro um copo. E eu não preciso me preocupar com a distância. Ela nem existe, eu já saí de lá, e eu nunca mais vou voltar. Como uma pedra, não, uma pedra, parada, assim não. Eu sou uma lagoa. Um rio. E eu não me importo com o tempo.
  Nem acho que vai chover. Não me importo se chove. Talvez chova, talvez não. Talvez eu volte, talvez não. O que eu sei é que preciso ir pra casa. E o resto se resolve sozinho.
  Se eu sou água, sou rio, sou lágrima, o que acontece quando o copo cai no chão e quebra?
  Deitei na grama. E sem me preocupar com o tempo, com o ontem, com o casamento, com nada… Evaporei.

  

Quando acordei puta

 

  Acordei puta, porque tinha sonhado que acordava e ia pra aula e agora ainda to aqui na cama. Levantei, me vesti rápido demais, como se ainda tivesse num sonho e parei e comi direito. Era o primeiro dia de aula. Estranhamente, eu nem tava nervosa. Fui e escovei os dentes. Tirei direito as remelas, não estava com olheiras, tudo direitinho. Passei o lápis de olho, o resto da maquiagem num segundo e logo, eu já estava no colégio.
  Abracei muita gente que eu não via faz tempo. Nem vi caras novas. Quase chegando na sala, o Gustavo parou e veio falar comigo e falou que eu tava linda. Meu mundo parou. Meu coração começou a bater forte. E então, um barulho. Que raiva desse despertador. Acordei puta, porque tinha sonhado que tinha sonhado que acordava e ia pra aula e o Gustavo…. E agora ainda to aqui na cama.
  Odeio ter uma imaginação subsconsciente fértil demais.

 

Tempo pra escrever

 

  O vocalista do Pearl Jam, Eddie Vedder, revelou em entrevista a BBC que não perde mais do que 30 minutos para escrever suas letras.
  O músico admitiu que já perdeu muito tempo para compor, mas que com a experiência, sabe que se alguma letra demora mais do que meia hora para ser produzida ou pelo menos elaborada, é porque é uma idéia que está tomando o lugar de outra melhor.
  “Por já escrever a muitos anos, muitos discos e por diferentes razões, não consigo demorar mais de meia hora em apenas uma letra”.
  “Se as coisas não acontecerem rapidamente, eu não faço. Porque isso significa que há alguma outra coisa que seria feita de maneira rápida e que o atingiria como um raio”, explicou Vedder.

[link da notícia acima] – vi no comentário do Fábio numa tirinha do (magnífico!) RYOTiras!
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  Acho que ninguém precisa que eu explique que Eddie Vedder é o cara, né? E eu acho que ele tem toda a razão nisso aí! É quase uma dica que eu do, pra quem gosta de dicas: não demora muito pra escrever. A maioria das coisas que eu escrevo surgem de uma idéia e muitas vezes eu começo a partir dessa idéia (geralmente o final da história) e depois escrevo o resto rapidinho, antes que mais pensamentos venham e me confundam e me façam travar a história.
  E eu não “inventei” essa teoria de escrever quando vier, de escrever rápido. Eu nem sabia que o Eddie Vedder (um dos meus ídolos) fazia assim – embora suspeitasse, porque tem uma música dele que ele escreveu numa viagem curta de carro e depois disse que se a viagem fosse maior a letra teria sido mais elaborada… -, mas um poeta que eu gosto pra caralho me ensinou isso: Octavio Paz [tá, o link que eu tinha, está corrompido agora...], bem, não tenho como comprovar, mas pelo que me lembro de ter lido, ele escrevia em poucos minutos seus poemas pra dar rítmo à poesia, pra parecer vivo ainda. Posso estar errado e ter inventado isso (já que o link não funciona…), minha imaginação é muito fértil.
  De qualquer jeito, fica essa dica, não importa, eu, vedder ou paz, escrever rápido dá uma vivacidade ao texto e capta o principal ponto do insight que você teve ao botar rápido no papel (ou computador…). Claro, não é nada obrigatória, é só uma dica pra muita gente – seja escritor ou sei lá, engenheiro. Os erros, as imperfeições, ficam pra ser corrigidas depois.
  Com esse pensamento, eu, J.D. Crespo pretendo escrever um livro em um mês (a vontade é toda minha, mas a inspiração veio do NaNo). Esse site estimula que pessoas escrevam romances de 50.000 palavras em um mês – não precisa ser obra de arte, o mês seguinte é pra revisão e edição. Eu sempre quis escrever meu romance, tenho duas grandes idéias (sendo uma delas, entítulada “Doce Declínio”) e a partir disso, peguei o mês de fevereiro pra escrever o meu romance – Chuva dos Sonhos.
  Demorei um pouco pra começar, mas agora acho que engatei. Só escrevi 2000 palavras em três dias, mas estou cada vez mais inspirado e entusiasmado. No entanto, o blog ficou meio de lado por causa disso, né… Mesmo que rápido, é difícil tirar minha cabeça da minha grande história. Então, meus leitores (haha, Fernanda H.! Outros Colunistas! Gabriel M.! Lucas L.! E você aí!) não esperem muito por aqui nesse mês não… Ainda vai ter bastante coisa dos outros colunistas eu espero, mas o que eu quero mesmo é escrever esse romance! Então, beijos e abraços e até março com o livro pronto!

   

Quando a repetição acaba

 

  Ele poderia ficar sentado ali, observando as estrelas, ouvindo as músicas de sempre e pensando. Era um costume, fazer isso, com o discman, o cd no repeat all. Quieto e tímido, S. nunca foi de sair, nem bebia, nem fumava, nem usava droga nenhuma. Aquele simplesmente não era o tipo dele.
  Os garotos do prédio (e algumas garotas) passaram por ele na portaria “meditando”.

Ei, seu nome é… S…, né?
É, porque você não vem com a gente?
Isso! Isso! Vamo!

  Ele apenas fez que sim com a cabeça e sorriu, disse “pode ser”. A verdade é que aquele pessoa era bastante animado e sociável, acolheram ele pra dentro do grupo. Eles foram pro apartamento de um deles, botaram uma música.

Só falta o ingrediente secreto.

  Ofereceram uns quatro comprimidos pra ele. Ele rejeita com a mão, fala “não, melhor não”. A garota, a simpática que falou com ele primeiro, ela pega na mão dele e fala “Fica tranquilo, é só analgésico. Nem faz mal, só deixa doidão” e riu.

Ele responde Então tá e sorri e toma os quatro comprimidos de uma vez.

  A garota faz o mesmo e puxa ele, Vem dançar. As pessoas dançam e sem nenhum motivo aparente, tudo parece mais divertido. Eles riem. Linhas aparecem e as coisas começam a ficar mais lentas, S. se sente como se ele estivesse em slow motion, no meio de uma chuva de linhas de luz.

Ih olha! Já fez efeito em você.

  E logo faz nela também e em mais algumas outras pessoas. E eles ficam olhando para pontos no teto e falando em voz alta suas alucinações: Eu to vendo uma chuva amarela de linhas de ouro. Ela ri e fala, Legal, S… – eu vejo as coisas travando, igual a um video de youtube. E eles nem riem mais, estão lá num transe.
E então, ela puxa ele e beija na boca. Com 17 anos, o primeiro de língua dele. E é bom e o beijo e o barato e tudo é bom.

  A música nem chega mais aos ouvidos dos dois.

  Ele pára depois de um tempo de viagem. Fala, já no espírito do analgésico: “Eu preciso fazer isso!”. E pega seu discman e põe o único cd que ele ouviu pelos últimos três anos. A garota simpática sorri e pergunta: acho muito diferente, um discman. Quê que cê tá ouvindo?, ele responde automaticamente: Air.

Não conheço.
É fantástico.

  E eles riem e beijam um beijo longo, como se tivesse parado de carregar o beijo na metade. A chuva de fios dourados vai diminuindo. Mas está tudo ótimo. E então, ela esbarra no discman e ele escorrega e cai no chão. Pra piorar, ele mesmo pisa sem querer e quebra o cd dentro. Eles riem. “Agora, você pode comprar um ipod”. Ele fica um pouco abalado, não tem mais sua música.

  Mas eles voltam a se beijar e eles tomam mais comprimidos e essa vira a melhor noite da vida dele…
  …E a pior manhã. Vômito. Mãe preocupada. E um pouco de dor de cabeça.

  No entanto ele se lembra das coisas. E gosta do que lembra. E liga o rádio, põe pra tocar uma música animada qualquer. E vai tomar banho.

 

Para parar de fumar

 

  Selo no braço, mas cigarro no bolso. Para não fumar, Sérgio bebia umas cervejas, sentado sozinho numa mesa de bar. Futebol na televisão, bastante gente lá. E ele não fumava. Ótimo. Tudo ocorria bem até que…
  Ele avistou uma linda mulher, loira, lábios carnudos. Olhou para sua cerveja, seu reflexo solitário, e pensou: por que não? Então, tentando parecer simpático Sérgio voltou seus olhos à moça. Tudo ocorria bem até que…
  Aquele rosto apareceu claramente em sua memória: era Gisele, a mulher do Diego, seu irmão. A imagem daquele cigarro apareceu na sua cabeça. É melhor ficar perto de alguém. Mesmo que seja a mulher do meu irmão. Ele foi até lá. Tudo ocorria bem até que…
  O celular tocou. – Alô. – Alô. – Opa, e aí tudo certo Diego? Ele estava quase chegando na mesa dela. Tudo ocorria bem até que… – Na verdade não, Sérgio. – Ah é, o quê que houve? Ele até parou de andar. Tudo ocorria bem até que…
  Um homem negro e corpulento sentou-se na mesa à sua frente, a mesa de Gisele, a mulher do irmão. – Cara, eu descobri uma coisa horrível… Sérgio ficou um pouco aliviado: é, já sei, já sei. Pelos menos ele sabia que estava sendo traído. E além do mais, Sérgio sempre achou que ela tinha uma cara de adúltera. Tudo ocorria bem até que…
  Gisele avistou Sérgio e fez um gesto para que ele se aproximasse. O negão se despediu dela, cumprimentou o homem ao celular e foi embora. – Ô Diego, é você me ligar depois. Tudo ocorria bem até que…
  - E aí, tudo bem Sérgio? Na cabeça dele, tudo se encaixava e ele estava decifrando a mente daquela loira maquiavélica. – Tudo… e você, tudo em cima? Ele estava impressionado: como as mulheres poderiam ser tão… falsas. – Tudo ótimo. E ainda tem cara de pau. Conversa vai (eu soube que você tá tentando parar de fumar, é verdade?), conversa vem (é…). Tudo ocorria bem até que…
  Sérgio resolveu o quebra cabeça. “Era isso! Diego sabia que ela estava pondo chifres nele e vai largá-la. Ela não sabe que o Diego sabe. A Gisele percebeu que eu a encontrei com o… amiguinho dela. É isso, ela quer dar pra mim, por que aí eu deixo de ser testemunha e viro… uma espécie de amante. Eu não vou fazer isso com meu irmão…”. Tudo ocorria bem até que….
  - Oi, Sérgio, você tá aí? – Me desculpa, eu me distraí com meus pensamentos… Os olhos dele não desgrudavam daqueles lábios carnudos. O diabinho e o anjinho surgiram ao redor de sua cabeça. “Mas ela é a mulher do seu irmão..” dizia o bichinho de auréola. O outro respondeu “Era. Agora, você precisa fazer o preciso para parar de fumar” e acabou com a discussão. Ele então estava decidido a levar a moça Gisele pra cama e começou um papo mais sedutor. Sérgio era mestre nisso. Tudo ocorria bem até que…
  - Ei, que tal a gente ir lá pra casa?. Ela assentiu com a cabeça. Tudo ocorreu bem. Mais que bem. Foi ótimo. Ela virou para o lado para descansar um pouco, ele sentou-se nu na cama. O remorso atingiu-lhe em cheio. Tinha sido um escroto com o irmão. Maquinalmente pegou um cigarro e um isqueiro na cômoda. Hesitou, pensando “tenho que parar de fumar.”. Tudo ocorria bem até que…
O celular tocou. – Alô. – Alô… A gente pode falar agora, Sérgio? Seus olhos percorreram o corpo de Gisele e ele respondeu: Claro, claro. – O que eu tava dizendo antes era que eu descobri de tudo. Você já sabe né. Eu to aqui na casa da mamãe e achei dois maços de cigarro no lixo, você não falou que ia parar? – É… Eu… Eu… Sei… Foi mal. Seu coração disparou. – Ei, você sabe onde tá a sua mulher agora? – Ah, ela foi combinar o orçamento com o cara da dedetizadora no bar, a gente ta cheio de cupim lá em casa. Se ela já acabou com isso deve estar em casa. Por quê? – Ah tá. Não, nada. É que eu achei que tinha visto ela no bar… – É, ela devia estar lá mesmo. – Certo. É… Bem, eu vou parar de fumar, não… Não se preocupe meu irmão.
  Sérgio desligou o celular. Pegou vários cigarros e pôs na boca. Acendeu todos. E praguejou silenciosamente para si mesmo: puta que pariu.

[29/03/09]